Na mitologia grega dizia-se que Zeus ou Júpiter tinha o poder de fazer com que um chifre de cabra – a cornucópia -enchesse com tudo o que se desejasse. E a criou em retribuição às ninfas que cuidaram dele, abandonado que fora, em sua infância. Seria o símbolo da abundância. Hoje serve como símbolo de negócios. A par disso, sabe-se que o oboé é um instrumento de sopro surgido há milênios, remontando à China ou à antiga Grécia de onde derivaria do aulo, que também era soprado, tinha palheta simples ou dupla, com um ou dois tubos furados por onde saiam os sons. O oboé é feito de madeira com um tubo ligeiramente cônico e emite, quando soprado, sons que são preciosos em uma orquestra sinfônica.
E qual a relação entre uma cornucópia e um oboé? Nada e tudo.
Nada se os virmos de forma isolada. Uma, a cornucópia, é fruto da antiga civilização grega e passou à história da humanidade sob a forma didática da mitologia. O outro, o oboé, é resultado de trabalho de artesãos que o foram aprimorando por séculos e séculos e hoje tem palheta dupla, três chaves, e é soprado, saindo o som por seis orifícios. Tudo, se admitirmos que, visualmente, os dois têm algo de parecido e que, talvez sem saber, um contador que, por profissão, vê tudo pelo método cartesiano das partidas dobradas quando há ou não abundância ou lucro, os uniu. Uniu mitologia à música e, querendo ou não, passou a fazer artes em meio a números. Paradoxal? Mas o que é a própria vida senão um grande e indecifrável paradoxo?
Pois foi assim que Newton Freitas, ao procurar sedimentar a imagem cultural de seu negócio de valores despeja sobre seus clientes e amigos uma cornucópia de informações sob a forma de dicionários. Já misturou finanças com vinhos e artes. E o faz de forma didática, como se estivesse analisando contas, expressando pensamentos de “auditores culturais”, com a simplicidade capaz de dar aos não iniciados um caminho para a informação básica que, sedimentada, poderá se transformar em conhecimento. E o conhecimento é que gera, por decantação e apuro, a cultura.
É bom que nestes tempos alguém ouse coligir verbetes, os reúna sob a forma de dicionários e os distribua com prodigalidade na esperança de que sirvam para a alegria dos que ainda acreditam que não se vive só de cornucópias ou valores, mas é preciso também ouvir oboés em meio a sinfonias.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/11/2002.

