INTELIGENTE

Às vezes me acho meio burro. Não adiantou nada ter feito alguns testes de Q. I. e saído feliz com os resultados. Não valeu ter alisado, por muitos anos, carteiras escolares. A certeza da minha burrice parece ser procedente. Não é conversa fiada. Ela se baseia na constatação de que não tenho capacidade para entender determinadas coisas neste nosso querido Brasil. Cinco exemplos.
Primeiro: Leio estarrecido que o governo já emprestou R$ 2,4 bilhões às empresas de telecomunicações privatizadas. E não fica só nisso, vai emprestar – ou já o fez – mais R$ 7 bilhões. O total arrecado com as vendas foi de R$ 22 bilhões. Se emprestar 9,4 bilhões, os grupos compradores terão recebido 42% do total da compra. Ora, se o governo vendeu para se livrar de um problema (?), como financiar, se todo o santo dia pede dinheiro emprestado aos bancos?
Segundo: Qualquer pessoa medianamente esclarecida sabe que os bancos têm no governo a sua maior fonte de receita: segura, não discute preço e sempre quer mais. Se o governo não tem dinheiro, reclama com o novo mínimo de R$ 180, como é tão liberal em facilitar a vida de grandes empresas que fizeram cadastros, disputaram licitações em que se diziam fortes financeiramente e estavam capacitadas a assumir o controle das empresas privatizadas? Além disso, o valor pago como ágio na ocasião das compras das teles poderá ser abatido do imposto de renda a pagar.
Terceiro: Alguns membros do Governo eram dirigentes de bancos e de empresas internacionais com salários mensais superiores, afora despesas pagas, lucros e gratificações anuais, em média, a 20.000 dólares ou 40 mil reais. Por patriotismo, passam a trabalhar no governo com um teto de 11 mil reais. Usam ternos e complementos importados, viajam para o exterior com regularidade e alguns mantêm dupla residência. Aqui e fora do país.
Quarto: É simples saber que um hospital não pode sobreviver com os valores que o Sistema Unificado de Saúde (SUS) paga. O governo continua fazendo de conta que está pagando correto, os hospitais dão um jeito para sobreviver – enquanto muitos pacientes morrem – com os atrasos, preços defasados e os médicos obrigados a ser ubíquos. Enquanto isso, os remédios custam, às vezes, no Brasil mais do que nos países – do Primeiro Mundo – sedes dos laboratórios. Por outro lado, umas farmácias dão 25% de desconto e outras dizem que, em nome da ética, não podem dar desconto algum. Dá para entender?
Quinto: As eleições municipais passaram. Quase todos os municípios brasileiros referem estar falidos, com dívidas maiores que suas capacidades de pagamento. Os prefeitos eleitos ou ré já se dizem injustiçados pela imprensa, desgastados com o funcionalismo, pressionados pelos credores, alguns são investigados por Cpis, cobrados pelas famílias e com um estresse enorme. Nem por isso, a grande maioria deixou de se (re)candidatar, sofrer, gastar muito dinheiro, comer maioneses, discursar em palanques, abraçar crianças, cantar o hino nacional de mãos dadas com familiares e correligionários que, em breve, poderão se tornar adversários. Dá para ser inteligente?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/01/2001.

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