Enquanto escrevo esta crônica estou ouvindo Carmina Burana. Para o meu ouvido leigo são sons ininteligíveis, mas o crescendo melódico me agrada e dá uma sensação de que as pessoas, especialmente os artistas, são bem maiores que a mediocridade reinante em grande parte das rodas.
Há pessoas que não crescem. Até estudam, alguns viajam, frequentam, podem até amealhar, mas são de uma pequenez facilmente desnudada em gestos, em demonstrações pueris e pelo entorno de suas vidas. Imagino se deve encher o saco ser-se vazio, não ter a capacidade de privar do isolamento, do silêncio prazeroso, do livro degustado palavra a palavra, da música enternecedora, da bebida sem culpa e sem vício e do conversar sobre fatos e não sobre fotos ou fofocas.
Faz tempo, muito tempo, que perdi a ilusão da unanimidade. Faz tempo, bastante tempo, em que admitia ser capaz de ter muitos amigos, Hoje, quero-me privando de poucos e privado dos muitos que frequentam ou bordejam os acontecimentos, pela simples incapacidade de não poderem ficar a sós com os seus ais.
Para esses, é preciso sair de casa, aparecer, ser visto, rir para desconhecidos ou fotógrafos, colecionar recentes amigos de infância e cortejar poderosos. Não importa se compram ou não quadros, leiam livros ou não, sejam distantes do falecido ilustre ou dos patrocinadores da festa badalada. O que conta é a presença a qualquer acontecimento. É dizer: eu fui, eu vi, eu estava lá, como se alguém se importasse com isso.
Pode ser casmurrice, rabugice e chatice. Vá lá que seja, mas não me compraz a alegria encomendada, gente disfarçando suas (in)diferenças em postura de conveniências, conversas inconsequentes em que, por exemplo, autores tipo Paulo Coelho são citados como arautos da sabedoria e pessoas são bajuladas, como se fossem senhoras do mundanismo, pelo capacidade de registrar o vazio de puxa-saquismos explícitos ou disfarçados.
Não vou modificar o mundo, sei disso. Ninguém pode, todavia, conduzir-me ao bloco dos que aceitam tudo isso como natural. É ruim ver a falsidade como característica da personalidade e a maledicência como divertimento. Recuso-me a participar do que não me agrada. Tenho pouco tempo para concessões e devo respeito a mim mesmo, com quem convivo 24 horas por dia. Não me queiram mal por falar o que sinto, sinto muito, mas sentiria muito mais se, para agradar, me visse rindo do que não gosto, convivendo com quem não prezo, aceitando convites impessoais, batendo palmas sem vontade.
Tudo isso pode ser rabugice, repito. Mas, quem sabe, possa até ser um privilégio da maturidade, em que nos aceitamos como somos e nos permitimos cometer erros, inclusive este, de dizer o que se pensa.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/06/2001.

