José veio do interior e mora em uma favela. A duras penas, por ser analfabeto, conseguiu um emprego na área da construção civil. Com dificuldades, luta para manter a mulher e quatro filhos, um deles com desnutrição crônica. Saía de casa ao raiar do dia e ia de bicicleta para o trabalho. Trocava os vales transportes por comida, mas anda triste e preocupado, pois já foi assaltado duas vezes ao sair do caixa eletrônico onde a firma em que trabalha, por segurança, deposita o seu salário mensal. Na última vez, além do salário, roubaram sua bicicleta. E o que é pior: ouviu do mestre de obras que a construtora está falindo porque não vende os apartamentos e não recolhe o FGTS há quatro meses. Se ficar desempregado, o que vai fazer?
Raimundo é policial e separado. Dá 30% do que recebe à ex-mulher e hoje vive com uma prima que era mãe solteira com dois filhos. Comprou uma casinha financiada cujas prestações estão atrasadas há seis meses. Recebeu uma notificação para pagar o atrasado em dez dias ou será despejado. Sai para o trabalho com um revólver na cintura e mil problemas na cabeça. Não sabe como sair dessa situação e não vê como proteger os cidadãos (palavra que aprendeu em um curso de relações humanas), o que tem que fazer por dever de ofício, pois se sente totalmente desprotegido e triste. Há horas que dá vontade de “fazer uma besteira com o revólver”.
Marcos entrou no banco como contínuo. Estudava à noite e terminou, com a ajuda da família, um curso superior que lhe deu direito à progressão no trabalho até chegar, depois de muitos anos, ao cargo de gerente de agência. Foi uma alegria, chamou os amigos e tomaram cerveja até o raiar do dia. Mudou de casa, comprou um carro de consórcio e matriculou os filhos em uma escola pública perto de onde mora. Sua mulher faz doces e salgados para ajudar a renda familiar. Há alguns meses, Marcos recebeu um telefonema de sua mulher: ou ele dava o que tinha no cofre do banco ou ela e os três filhos seriam mortos por dois bandidos que invadiram a sua casa. O comparsa estava defronte ao caixa 3 de paletó e gravata amarela. Pensou e entregou os 45 mil – que arrecadou nos caixas, assinando guias de retirada – ao bandido que saiu rindo e em passo normal. Hoje, tenta se livrar de um processo como autor intelectual do assalto e foi sumariamente afastado da gerência.
Sérgio é sócio de uma empresa. Começou a trabalhar desde menino. Poupava quase tudo que ganhava. Era diligente, inteligente e não media esforços em descobrir alternativas para vencer na vida. Fez do trabalho a sua meta e conseguiu, já maduro, um nível de renda acima da média. Nunca badalou em festas, não frequenta clubes e, quando muito, vai a um restaurante do bairro com a família nos fins-de-semana. Recentemente, após demitir um empregado por justa causa recebeu uma carta anônima ameaçando-o de sequestro. Não queria fazer ligação dos fatos, mas foi aconselhado por precaução a levar a carta anônima à Polícia. Carta anônima não é prova, disseram. Perguntaram se queria fazer uma representação contra o ex-empregado. Pensou duas vezes e disse não. Hoje é um homem amedrontado, pois não sabe quem o quer atingir. Carta anônima não é prova é uma frase que fica martelando em sua cabeça. Conversou com a mulher e os filhos para terem cuidado, mas anda sem ânimo, infeliz e começou a tomar antidepressivos. A mulher reza e chora.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/07/2001.

