Estou em São Paulo. Meus ouvidos não convivem bem com o tom monocórdio da música baiana que rola aí neste final de semana. Por mais boa vontade que demonstre, não encontro sentido para tanto barulho em uma festa que não tem nada a ver com nossa cultura, incomoda o trânsito, compromete a higiene, causa transtorno a moradores, transformando as frentes de seus prédios em barricadas e é pobre como manifestação popular. O pior é que, quando voltar, ainda estarão armados os camarotes onde pessoas desfilaram suas vaidades. O desarme tem a velocidade inversamente proporcional à da montagem e depende do destino itinerante desse circo. E os canteiros ficam servindo de depósitos, enquanto os operários armam suas redes nas árvores e caminhões gigantescos atrapalham o trânsito.
Como sou curioso, estou conhecendo essa região nova que fica para os lados de Santo Amaro, uma avenida com o nome pomposo de Nações Unidas, por abrigar multinacionais e pretensões de ser uma espécie de Av. Paulista do século XXI. Sou um estranho em São Paulo pela falta de um mar que dê referência. Já vim dezenas de vezes e nada de saber direito onde ficam os lugares aonde tenho de ir. Em alguns bairros ainda me mexo, noutros fico igual a cego em tiroteio. Poucas vezes atrevi-me a dirigir em São Paulo.
O trânsito é lento, agora que as peruas clandestinas perderam o medo de competir com os ônibus e táxis. Em toda esquina tem vendedor ambulante e flanelinha. A maioria com cara de nordestino e se abriga deste frio de fim de julho com agasalhos velhos. Jovens com pouca esperança, mas com risos nos lábios e as mãos cheias de quinquilharias para vender a motoristas amedrontados – com os vidros dos carros fechados – enquanto o sinal, que é conhecido aqui como farol, fica vermelho. São os “baianos” daqui, o nosso produto de exportação mais conhecido e discriminado, fruto de uma região que conviveu de forma passiva com políticos salvadores de uma pátria especial, a deles, e esqueceu dos incautos eleitores, até que a miséria os enxote para as cidades grandes e, muitas vezes, à delinquência.
Mas, falava que estava me sentindo estranho e é verdade. Há hotel com campo de golfe, passo por um centro de convenções bonito e moderno e vejo o nome: Credicard Hall. Mas, ali perto, tem uma favela que se multiplica a cada dia. Acho que é um subproduto da nova globalização que nos impele a aceitar, goela abaixo, o que a mídia e as grandes empresas impõem com seu poder e tentáculos. Somos todos marionetes nesse jogo em que a regra é não ter regra e isso fica patente aqui em São Paulo, uma cidade dividida em guetos e amedrontada pelo paradoxo de sua pujança e pela miséria avizinhada e visível. Paro um pouco para pensar e concluo o óbvio: as grandes cidades brasileiras não são diferentes de São Paulo. Fortaleza está tão desumana quanto. A única diferença é que os estrangeiros ainda estão chegando por aí e vindo, parece, com vontade de ficar. São recebidos com festa, têm direito a financiamentos, gostam do sol, do mar, da mão de obra barata, mas não têm sonhos, têm metas.
Vou procurar o José Simão, talvez, como diz ele, seja preciso um colírio alucinógeno para não ver e sentir como será o futuro.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/07/2001.

