A GÊNESE DO CAOS

Se eu pudesse puxar o leitor através do tempo, bem que o puxaria de volta ao princípio dos anos 60 e mostraria a exuberância dos Estados Unidos e de seu jovem Presidente John Kennedy. Veríamos, em seguida, sua morte inexplicada até hoje, a do seu irmão Robert, a do suposto matador Lee Oswald e a do matador do suposto matador, Jack Rubin.
O tempo voou, passamos o ano de 1984, emblemático pelo conteúdo catastrófico do livro homônimo de George Orwell. Os computadores saíram de sua pré-história para as loucuras visionárias de Artur Eduardo Benevides, um poeta que, sem saber, estava se transformando no cavaleiro do Apocalipse cibernético ao escrever o conto futurista “A revolta do computador”.
Hoje, alguém bem-dotado de inteligência, pode furar o bloqueio de sistemas de defesas de instituições financeiras, países, organismos internacionais, empresas e fazer misérias com a humanidade. Para que isso não acontecesse precisaria que, do outro lado, existissem pessoas igualmente inteligentes, com elevado senso de justiça e humanitarismo, tivessem o poder de estabelecer limites barrando as pretensões de países e grupos econômicos que já não sabem mais fazer distinção entre 100 ou 200 bilhões de dólares. São meros números que retratam o poder, nada mais que isso, pois desprovidos de significado maior por não gerarem empregos, mitigarem a fome, eliminarem doenças e tampouco diminuírem as desigualdades tão vis do mundo.
Parece que os quocientes de inteligência dos líderes da humanidade são, na verdade, menores que dos “hackers” e dos terroristas, desafiadores da ordem estabelecida, sem compromissos de ordem ética ou pretensões de justiça. Agem por desatino ou mera vingança. O que aconteceu ontem nos Estados Unidos ainda não pode ser entendido em toda sua profundidade. Forçoso é, entretanto, associar essa loucura inominável ao desespero de minorias que não acreditam mais em saídas para a humanidade. A conferência de Durban, na África do Sul, que pretendia ser um libelo contra o racismo e a discriminação passada e atual, foi esvaziada pelo poder dos mais fortes que tudo querem e nada dão em troca.
A hegemonia dos Estados Unidos pode ter gerado em países ou etnias de índole terrorista o estopim desses atos tão brutais quanto insanos. É muito cedo para saber os desdobramentos de tão graves acontecimentos, mas ainda não é tarde para revermos os valores da sociedade, especialmente de suas elites dirigentes, encasteladas em um mundo em que as pessoas são meros eleitores, consumidores ou excluídos, esquecendo-se que os ressentimentos e as humilhações sofridas podem ter fomentado essa malta de terroristas que hoje, graças à evolução da informática, quebra sistema de defesas e provoca o caos.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/09/2001.

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