No dia 14 de agosto deste ano, menos de 30 dias antes dos atentados aos Estados Unidos, o diplomata Sérgio Danese, autor do livro “Diplomacia Presidencial”, publicou, no Jornal “O Estado de São Paulo”, o artigo “As lições dos 13 dias de outubro”, baseado no filme americano “Treze Dias”, dirigido e estrelado por Kevin Costner.
O filme conta a crise dos mísseis entre os Estados Unidos e Cuba em 1962. Danese faz referência especial às lições que poderiam ter sido tiradas dessa crise, ocorrida no Governo John Kennedy, entre os dias 16 a 28 de outubro de 1962. Embora seja a ótica americana da crise, há um aspecto didático para reflexão dos governos que sucederam a Kennedy. Ninguém refletiu.
Que lições seriam essas?: 1) Confie, mas verifique; 2) quem decide deve ouvir opiniões conflitantes; 3) nunca negocie por medo, mas nunca tenha medo de negociar; 4) em muitas ocasiões em que tudo parece exigir pressa, vale a frase de Taleyrand: “é urgente esperar”; 5) quando estiver negociando, estabeleça quais os seus objetivos reais e não procure ganhos adicionais; 6) calce sempre os sapatos do seu adversário para saber como ele observa você; 7) nunca acue um adversário e sempre dê oportunidade dele salvar sua pele; 8) as decisões têm que ser legítimas e não amparadas pela força ou artifício político; 9) as recomendações para usar a força têm que pesar as suas consequências e implicações futuras; 10) a ameaça de uso da força nunca pode ser um blefe ou retórica; 11) “nenhuma ação se toma contra um adversário poderoso no vácuo”, já dizia Bob Kennedy; 12)não tente comprometer publicamente o seu adversário, nem negociar com ele pela mídia, sem antes convencê-lo privadamente; 13) “há vitórias que não se comemoram (Rio Branco).”
Essas lições, por nós adaptadas e ora repassadas, servem para todos nós, governados e governantes. Provavelmente, os atuais governantes não têm tempo para ver filmes. Não seria perda de tempo se vissem filmes, ouvissem músicas, lessem livros, conversassem com gente comum e não se restringissem às cerimônias previamente organizadas e ao que ouvem de seus áulicos e assessores. A distância do mundo real torna-os insensíveis. Este século – ou década? – parece que veio para nos mostrar isso.
Embora fora do contexto, é bom lembrar a alienação de Maria Antonieta ao ser informada em Versailles – na eclosão da Revolução Francesa – de que faltava pão para o povo. Na sua ignorância, que lhe valeu a cabeça na guilhotina, disse: por quê não servem brioches?
Quantas marias antonietas teremos hoje?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/11/2001.

