A MORTE

Leio – e me aproprio de citações – um ensaio feito sobre a morte, por Janaina Fidalgo (caderno “Equilíbrio”, da Folha de São Paulo). Lembro que uma pessoa amiga dizia ser eu chegado a um enterro. Mera gozação ou erro de perspectiva. Não tenho prazer algum em ir a enterro, muito pelo contrário. Mas, se alguma pessoa ligada a mim morre, acho um dever ir ao enterro. Não sou de fingir sentimentos, dar aqueles abraços, mas compareço e me comporto com atenção e respeito.
Ao longo da vida, quer queiramos ou não, sentimos a morte rondar por perto. Ora é um parente próximo, um amigo querido ou uma pessoa notória que a mídia se encarrega de enfocar, com detalhes sobre sua vida e morte. No fundo, parece que ficamos felizes por continuarmos vivos quando alguém morre.
Não estamos falando em tempo de catástrofes e guerras, quando a banalização da morte mostra a iniquidade dos homens. Falamos da morte no varejo, uma a uma, e aos fins de semana, por conta dos sinistros ocorridos no atacado com acidentes e choques de veículos, pegas de jovens e crimes. Se ninguém próximo é atingido, apenas passamos os olhos pelo jornal ou, bocejando, vemos a notícia na televisão. É assim que o mundo gira, a indiferença está arraigada em nossa civilização hedonista e egoísta.
E isso é, talvez, o que nos mantém vivos e relativamente saudáveis. Já Albert Camus, escritor francês, dizia que “o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é”. Falava assim para lembrar a nossa condição de mortal, pois queremos esconder a morte, escamoteá-la do nosso viver. Segundo o antropólogo Acácio Almeida Santos, a propagação de funerárias, onde os velórios são realizados, são recursos “de afastamento, ao colocar a morte para fora de casa…. para fingir que ela não existe.” Se um parente de alguém morre em um hospital ou em um desastre, e o seu corpo é velado fora de casa, a família fica aliviada mais rápida, pois finge ou disfarça a realidade.
A psicóloga Maria Helena Pereira Franco advoga a ideia de que, em nosso dia a dia, as perdas ( relações cortadas, desemprego, não passar em concurso etc) deveriam ser entendidas como uma forma de preparação, pois “trabalhar com essa experiência negativa, que causa dor, traz crescimento e é uma maneira de entender o cotidiano, de tocar a vida e avaliar o que é e como enfrentar a morte”.
Gláucia Rezende Tavares, fundadora do grupo “Apoio a Perdas Irreparáveis”, mostra, sem paranóia ou morbidez, como devemos conviver com a inexorabilidade de morrer. Para ela: “O melhor preparo para a morte é viver bem a vida. É como calibrar o farol do carro. Curto para não cair nos buracos e longo para ver as curvas. Lide com a vida no dia-a-dia, mas saiba que existe essa projeção (a morte) para o futuro”. Por outro lado, Ariano Suassuna, do alto dos seus 74 anos, diz – e eu ouvi – que não vai morrer e tem mais é que se preocupar em viver. E você?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/11/2001

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