A gestação foi longa. Anos. Décadas. Lembro: o “primeiro livro” escrito por mim aos 14 anos. Era um “romance” bobo feito à mão em um caderno “Avante” em que um adolescente se apaixona, nas férias, por uma menina faceira e arisca. E por ai ia. O fato é que, um belo (ou nefasto) dia, o caderno caiu numa piscina, o romancista e o romance se afogaram. Depois, como todo mundo, fiz versos que estão mofados nas gavetas.
Já universitário, passei a escrever em jornal com coluna diária assinada. A primeira fase foi sobre “informes acadêmicos” em que narrava o acontecido na vida universitária. Posteriormente, escrevi durante anos sobre “administração e negócios” e fui correspondente de uma revista semanal de economia. Tive até a audácia de, por breves tempos, coproduzir com o Hélio Mota um programa semanal de TV, “Fortaleza, preto e branco”, em que a cidade era passada a limpo, sem apelações.
Na universidade fiz trabalhos, monografias e teses, mas a vida me jogou em outros rumos e, já como planejador, dirigi a elaboração de muitos planos e projetos. Tinha de escrever, é claro, mas não era a escrita solta, descomprometida do escrevinhador que ama o papel em branco para colocar o que sente, sem peias.
Um dia, faz muito tempo, me permiti voltar a escrever em jornal e o fazia de forma esporádica. Ora um jornal, ora outro. De repente, me fixei nesta página dois do DN e cá estou eu espremido pelo editor Bilas há mais de trezentos domingos.
Toda essa lenga-lenga é para dizer aos meus parcos leitores que reuni no ano passado, em livro, algumas das crônicas aqui publicadas. Procurei as que fossem mais leves. Pedi a Saulo Neiva, Professor Doutor de Literatura Brasileira, hoje docente da Université Blaise-Pascal, na França, que lesse o “boneco do livro” e, se gostasse, fizesse o prefácio. Ele fez o prefácio. E o livro foi parido com o prosaico título de “Sobre a vida e o amor”. O livro é como o título, simples, raso e tenta apenas mostrar uma face minha pouco visível. Como disse Guimarães Rosa, em Tutaméia: “o livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber”.
Não fiz noite de autógrafos, por achar que há uma saturação indevida desse evento. Preferi presentear a alguns amigos e livrarias o estão vendendo. Finalmente, foi Machado de Assis, no livro Dom Casmurro (XCII), quem falou: “O resto deste capítulo é só para dizer que, se alguém tiver de ler o meu livro com alguma atenção mais da que lhe exigir o preço do exemplar, não deixe de concluir que o diabo não é tão feio como se pinta”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/01/2000.

