CASADO E SEPARADO

Fiquem tranquilos. Vocês não conhecem. É gente distante. Pessoas amigas gastam seus e-mails para me falar da incoerência de estarem casadas e viverem separadas. Paradoxal? Não. Absolutamente verdadeiro.
Eu sempre tento responder o que me perguntam, mas não tenho certeza de colaborar. Às vezes, posso até atrapalhar. Correndo esse risco, sempre é bom discutir as razões, mesmo me faltando à ferramenta terapêutica para apontar soluções. Afinal, como dizem os profissionais que vivem de cuidar das almas e das mentes dos outros, as soluções estão dentro de nós. O difícil é manter um casal pensando como “nós”.
Acredito que os casais não podem procurar respostas isoladas para seus problemas. É preciso admitir, para começo de conversa, que os dois devem voltar a conversar, sem medo de estar invadindo o espaço do outro. Pelo contrário, o respeito ao espaço do outro pode dar origem ao distanciamento, um dos alavancadores da solidão entre casais. É claro que cada um deve, nestes tempos bicudos, procurar viver a sua vida. Isso não invalida que se comuniquem, falem de suas alegrais, fraquezas, desejos e sonhos. Briguem, até.
Os olhos podem até demonstrar começar com raiva e terminar com ternura, brilhar ao ver o outro. Sem brilho no olho não há amor e é preciso usar um colírio para manter e lubrificar o olho atento: o toque físico, o erotismo, o companheirismo e a ternura. Ainda não somos virtuais, somos gente de carne e osso, com odores precisando ser sentidos, corpos necessitando de afagos e ouvidos desejando não a censura, mas o papo descontraído, as pernas cruzadas, a cumplicidade e aquela arenga puxando o lençol podendo acabar em um simples abraço ou algo mais quente.
As estatísticas, sempre elas, demonstram o óbvio. Casais jovens se tocam mais, chegam a perto de 40 toques mútuos por dia. Os casais mais velhos se preocupam em tocar a vida, o controle remoto, órgãos eletrônicos e, passando a discípulos de Onã, descobrirem o seu próprio corpo. Está errado. A saída pode estar em andarem mais juntos, descobrirem que não são tão chatos quanto imaginam e não usarem somente as suas reservas de boa convivência na presença de estranhos. Sejam menos exigentes com o outro. Afinal, todos temos os nossos defeitos e, defeito repetido, vira mania e mania incomoda o outro.
O homem vai, pouco a pouco, perdendo a sua capacidade de conquistar ou manter a conquista da própria mulher. É a acomodação que deve ser rompida pela mulher com os seus enlevos, coragem e iniciativa. Não estou falando só dos casais que possam eventualmente ter uma aventura extra, mas do que perderam o apetite pelo outro pela falta de diálogo, pela ignorância de admitir que só o outro é que envelhece e se afasta para um mundo seu, quase autista. É preciso diálogo e deixar a conversa superficial de filhos, trabalho e dinheiro, para o que sinto, o que me falta, onde você poderia me ajudar etc. É indispensável deixar brotar os sentimentos, adivinhar pensamentos e assassinar a rotina. Saiam só, sem amigos e conversem sem medo, sem acusações, recriminações e fantasiem o erotismo que, por certo ainda existe e tornem-no prático, sempre.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/01/2000.

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