O NOSSO FUTURO

Quem se dá ao trabalho de ler jornais, revistas e ver televisão deve estar apavorado de tanto ouvir, de um lado, notícia de concordatas e falências de tradicionais empresas. Do outro, a cada dia acontecem aquisições de empresas e bancos nacionais por empresas estrangeiras e, nos noticiários internacionais, são mostradas megafusões de conglomerados industriais e de serviços. Até clubes tradicionais de futebol como Corinthians, Flamengo e Vasco estão atrelados a contratos que os tornam joguetes e fontes de lucro.
Nós, enquanto pessoas, somos absolutamente frágeis e não sabemos aonde, nem como e quando essa estória de globalização vai parar. Todos os ramos de atividade estão sob os olhos de lince de equipes de empresas que identificam oportunidades, têm acesso a crédito com juros baixos, conversam tranquilamente com ministros e presidentes de república (especialmente os do hemisfério sul) e têm poderes para aniquilar os que não se rederem às suas propostas, sejam decentes e indecentes.
As empresas brasileiras, especialmente as de pequeno e médio porte, estão absolutamente desprotegidas e sem defensores à altura de seus problemas. Ora, se até grandes bancos e empresas brasileiras já foram vendidos ou estão sendo pressionados a fazê-lo, o que acontecerá com quem não faz parte dos círculos de poder que manipulam e tecem as teias dessa nova economia sem pátria e movida unicamente por interesses?
O que dizer aos jovens que viram suas famílias trabalhar anos e anos e, de repente, veem tudo indo para o espaço pela falta de crédito, pela incapacidade de oferecer preços competitivos em face da concorrência desleal ou pela substituição de hábitos de consumo que alijam seus produtos ou serviços?
Esse retrato pungente e assustador me faz lembrar uma frase do escritor russo Leon Tolstoi, bem no princípio do século XX: “O homem só pode melhorar uma coisa, a única que está em seu poder: ele próprio. Mas, para melhorar a si mesmo, é necessário que cada um reconheça que não é bom; e isto é a última coisa que o homem admite e quer”.
Pois esta é a hora de admitir que não somos bons e temos de melhorar, crescer como gente e, paralelamente a isso, espantar a nossa ignorância e tratar de aperfeiçoar os nossos níveis de informação e conhecimento, sob pena de nos vermos absolutamente engolfados nesse turbilhão que não tem tempo previsto de parar.
É prudente ter medo, é lógico ter receios, mas é preciso que cada pessoa ou empresa não sucumba às primeiras águas. É hora de aprender a nadar contra a correnteza, repetir o fenômeno da piracema a descobrir as nascentes dos novos rios que nunca pararão de correr, até porque não se passa duas vezes pelo mesmo rio, segundo Heráclito.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/01/2000.

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