Cheguei cedo e tive tempo de trocar algumas palavras com ele. Leve, adocicado pelo tempo, retemperado pelas dores da vida e com o olhar de vaga mundo que se auto exilou para ter o distanciamento crítico. E voltar ou quase.
Respondi às suas gentilezas e prometi-lhe uma encomenda para a Rua Mons. Bruno. Educado, levantou-se e trocou aquele abraço caloroso que só os que acreditam na sua masculinidade podem dar em ouro homem.
O lugar era quase o mesmo do passado, tingido de verde na esperança de novas glórias como se as festas e farras pudessem ter “revivals”. Postei-me equidistante e pude acompanhar a nuvem de gente que chegava. Uns por pura, franca e duradoura amizade, outros por supina vaidade e ainda uns outros que estão sempre, aconteçam o que acontecer.
Via-se de tudo, desde o jornalista com e sem jornal, ao político com e sem mandato, o empresário com e sem empresa, os que contam e os não, os que pensam, os que registram, os que fofocam, os colunáveis, os emergentes de todas as castas e quase todos pouco ligavam quanto tempo esperariam pelo autógrafo absolutamente personalizado e carinhoso.
O tempo passava e como manda quem pode, fez-se uma mesa solene e muitos se postaram atentos e, por minutos, se quedaram mudos. Basta dizer do carinho de quem o apresentou, amigo sem jaça, mosqueteiro de tantas andanças e esclarecedor de detalhes vívidos de um passado que se fez presente e tão dourado como a cor da camisa daquele que falava com a simplicidade de quem conta o que sabe, do jeito que sabe, gostem ou não.
Foi aí que me veio à memória que eu e o autor festejado, fomos sempre quase. Éramos meros João e Antônio, simples netos ou netos simples. Quase companheiros de jornalismo em eras de 60, quase colegas da mesma faculdade, quase ensinamos juntos e quase fomos bons amigos. E nessa condição de quase é que estou aqui para dizer quase nada. Direi apenas que minha memória visual penetrou na sala da Vila Angelita e se permitiu criar asas: vi chegar à redação e pegar um paletó emprestado para ir à Assembleia. Tomar um avião para Cuba, dar prego no meio de uma estrada, transformar sonhos de uma mera jangada em frota de desejos, mudar para Brasília, desfazer-se de parte do passado – como se isso fora possível – e tornar-se alado para pousar agora com asas cansadas por tantas estranjas e encher de luzes as coisas que remexem a memória e azucrinam o coração, pois dão aquela arritmia que nos impele a escrever sem a preocupação do memorialista, mas dos que ainda imaginam ter o direito de falar. Pois como bem disse a citada Susan Cheever: “O passado é um lugar perigoso”. Ou quase…
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/02/2000.

