Ao vencer mais uma das suas muitas corridas, Airton Senna disse ” É engraçado. Quando acho que cheguei ao ponto máximo, descubro que é possível superá-lo”. Ele era assim, só o próximo “grid” contava.
Ayrton Senna foi, em vida, uma das poucas unanimidades do nosso país. No seu jeito manso de falar, na sua obstinada manutenção da privacidade e na loucura planejada de suas corridas. Era especial sendo simples e nem os milhões que conseguiu amealhar acelerando no pequeno espaço de um “cockpit”, conseguiram freiar a sua indiscutível timidez. Quis a mão do destino que uma curva encurtasse a sua trajetória. Foi-se o corpo, mas seu espírito parece permanecer vivo e de uma maneira tão clara que o seu Instituto Ayrton Senna ocupa, com méritos próprios, a “pole position” dos avançados projetos de responsabilidade social operacionalizados no Brasil.
Semana passada participei de duas reuniões em que, Viviane Senna, presidente do Instituto Ayrton Senna pontificou. A primeira foi uma palestra, seguida de debates, em que ela mostrou competência, serenidade, fair play, agudeza de raciocínio e jogo de cintura.
Psicóloga de formação e batente, elegante sem perder a simplicidade, voz pausada dos que não precisam gritar para serem ouvidos, foi concatenando idéias e fatos com um didatismo que pouca gente tem. Realçou, entre outras observações, que as pessoas jovens no Brasil têm potencialidades, mas não tem qualificação para responder às necessidades do mercado. O seu trabalho ajuda os jovens a se qualificarem.
Recebeu homenagens e presentes, pousou com crianças e adolescentes, dividiu cerimoniosos beijinhos nas faces de pessoas que eram íntimas ou se faziam passar como tal. Ao final da palestra e dos debates atendeu, pacientemente, a todos os que queriam falar de seus trabalhos e não entenderam que o Instituto Ayrton Senna exerce uma ação proativa e pinça, após análises próprias, por este Brasil afora, projetos e parceiros para a obra que vai executando.
Após a palestra, ela participou da segunda reunião, um jantar reservado. Mais uma vez pude constatar a fleuma de Viviane Senna que, a todos tratou com alegria e atenção, mas deixou patente o seu recato público. Ouviu discursos equilibrados, veementes e até extemporâneos. Após o jantar, distribuiu sorrisos, cumprimentos e, como uma mortal comum que é, não se fez de rogada e subiu, com classe, o alto estribo de um jeep, recolhendo-se ao hotel.
De tudo o que vi, ouvi, senti e intui, ficou uma idéia recorrente: a de que, paradoxalmente, Senna morreu para viver. E vive pelas mãos de uma mulher capaz, dedicada a uma causa que conduz com lucidez, sem ares quixotescos, melodramas ou choros próprios de nós latinos, dando-nos exemplo e lição.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/05/2000.

