Os tempos de hoje são, essencialmente, analíticos. Quase toda pessoa ou microempresa pode ter um computador e até o mais modesto merceeiro sabe fazer contas, estabelecer comparações e tirar conclusões.
Vivemos uma época de um aparato tecnológico exuberante. Todos se servem da tecnologia nas mais diferentes áreas do conhecimento. Mas, são poucos os atrevidos a usar a intuição nas decisões mais intrincadas, sejam pessoais ou profissionais. Até mapa astral e horóscopo são feitos por computador, imaginem.
Os anatomistas e os neurologistas falam que possuímos, nos nossos cérebros, dois hemisférios: um do lado esquerdo, cuidando da análise e outro, do lado direito, valendo para as intuições. Segundo eles- se não estou errado – os canhotos têm as ligações cerebrais invertidas. Eu sou canhestro, logo os meus fios cerebrais estão trocados. Igualmente, dizem ser as mulheres mais sensíveis, humanas etc. Teriam elas também as ligações trocadas?
De minha parte, pelo sim, pelo não, acho a intuição muito forte no meu dia- a- dia. Não cresci com a tecnologia, cresci com as humanidades e uma tintura muito tênue de ciências exatas. Aprendi a ler e escrever e tomei gosto. Aprendi a fazer cálculos e a coisa ficou por ai. O fato é que, por necessidade, fui, aos poucos, ingressando no mundo da tecnologia e, consequentemente, das análises lastreando decisões, de modelos a serem respeitados se desejamos que as coisas saiam certas.
Por cauda de tudo isso, sou um bi-hemisférico. Tenho horas em que me vejo como um analista racional e, paradoxalmente, me considero um intuitivo nato. É claro que essa intuição já me fez poucas e boas, quebrando a cara muitas vezes, especialmente acreditando em pessoas que eram um simulacro do que aparentavam ou não me aproximando mais de gente sem máscaras e autênticas.
Igualmente, as minhas análises, precedidas de cálculos e estudos, também já falharam muitas vezes. O que pode parecer uma ambivalência, na realidade é, pelo menos para mim, uma graça que me confere a capacidade de acertar e errar pelos dois lados, mostrando-me o ser comum e falho que sou.
Algumas pessoas chamam essa dualidade de pensamento integrado. Esse pensamento integrado faria parte de uma revolução mental no cipoal do mundo tecnológico, sob pena de soçobrarmos no caos desrespeitador das glórias do passado e desmistificador, a cada dia, das vitórias presentes.
Independente de tudo isso, se tivesse – e se fosse possível – de optar apenas por um hemisfério, faria, sem medo, a escolha pelo do lado direito. Nele são geradas as criações e a imaginação flui sem medo, aparecendo os “palpites”, as “sensações”, os “pressentimentos” ou o que os de língua inglesa chamam de “feeling”. Apesar dos meus erros nas intuições, repito, creio na empatia e me restam a sensatez e a sensibilidade de não acreditar apenas em números, gráficos, fórmulas ou postulados.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/06/2000.

