O RIO, A AMIGA E O HOTEL

Parece nítida a imagem. A Av. Atlântica ainda era estreita e abrigava, do posto 02 ao 06, vários casarões e sobrados. Em um deles, a proprietária, uma ex- nobre viúva de muitos e muitos anos, hospedava moças de “fino trato, bem recomendadas e de boa família”. Entre elas, uma amiga que viera passar as férias de julho no Rio. Eu me deslocava para visitá-la lá da Ilha do Governador, onde ficava na casa de uma tia.
Em horários marcados para sair e voltar, passeávamos alegres e despreocupados. Um desses passeios era ir até à esquina da Rua Sá Ferreira, onde se erguia o bonito e majestoso Miramar Palace Hotel. Lá, um empresário destas plagas, hospedava-se com toda a sua família por semanas seguidas. Éramos recebidos no “lobby” e os meus olhos de jovem ficavam impressionados com a suntuosidade da escadaria, a beleza dos lustres, o brilho dos mármores e a vista do mar descortinada de suas sacadas.
Aquilo ficou gravado na minha memória. Anos após, já formado e começando a minha vida profissional, hospedei-me no Miramar para tentar sentir a mesma sensação gerada no primeiro impacto visual. Era julho, novamente, fazia o mesmo friozinho gostoso e comportado do Rio e recebi amigos no mesmo “lobby” e no bar. Senti-me infantilmente vaidoso de estar no lugar idealizado na primeira juventude.
Semana passada, mesmo sem precisar, mas para um ajuste de contas com o passado, voltei a ficar no Miramar. Aos meus olhos de hoje, não passa de mais um velho e razoavelmente conservado grande hotel do Rio, que perdeu parte de seu charme ao ceder sua varanda térrea, defronte ao mar, para uma cadeia estrangeira de sorvetes sofisticados.
Hospedei-me no nono andar e vi, por breves dias o mar encoberto pela fria neblina deste novo julho, décadas depois. Fiquei olhando o imenso apartamento, com sofás, mesa de jantar e quarto de dormir, e tudo voltou à tona. Mas não havia mais perguntas e as respostas pareciam não fazer mais sentido.
A Av. Atlântica, alargada, já não comporta mais o fluxo de veículos, e é ainda essa mistura de encanto, sedução – e agora – permanente medo. Os sobrados e casarões foram, há muito, implodidos em nome do progresso e a amiga de então quedou-se sozinha em sua vida povoada de leituras, pela madrugada, de livros, pareceres e processos. Eu, por outro lado, já não tenho os fervores da juventude e da imaturidade e, o barulho seqüenciado – e monocórdio – do mar parece mostrar, sem nenhuma dúvida, que os sonhos são engolfados pela realidade, que nos puxa para frente, mesmo que as lembranças do passado estejam por perto.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/07/2000.

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