Li, com interesse, um artigo do filósofo e escritor (nem todo filósofo é escritor e recíproca é verdadeira) espanhol Fernando Savater sobre “A importância do efêmero”. Nele, Savater fala de sua preocupação com as novas gerações virem a esquecer de ler jornais, em troca da navegação pela Internet e dos “chats” de conversação.
Eu penso que sempre existirão jornais, talvez as formas venham a ser diferentes, mas as pessoas gostam do prazer tátil de abrir um jornal e procurar o que lhe interessa ou atrai. As novas gerações precisam ser incentivadas, especialmente pelas famílias e os próprios jornais, deveriam ser mais alegres, menos sisudos e ter uma forma de comunicação mais leve para conquistar novos e jovens leitores.
Voltando a Savater. Para alegria minha, ele elogia os artigos publicados em jornais – mesmo os de tipia tão diminuta como este, que força a vista do leitor. Ele diz que a efemeridade do artigo é o fundamental: “Nenhum artigo, por melhor ou certeiro que seja, sobrevive muito além do dia em que sai impresso. Pelo menos não é saudável para quem o escreva pense que está cunhando um ditame para os séculos vindouros, devendo contentar-se em se dirigir àqueles que compartilham com ele a luz desse mesmo amanhecer”.
No meu caso, é o que tento fazer, com os poucos dotes de que disponho. Compartilhar com os meus escassos leitores, entre eles, por exemplo, uma advogada, uma procuradora, um renomado engenheiro, uma funcionária pública e uma cerimonialista que me alegraram, em encontros fortuitos, falando, no mesmo dia, sobre o artigo do domingo passado (O Rio, o mar e a amiga).
“A arte do articulista com certa inspiração a aprofundar seus temas consiste em falar das coisas que passam como se não fossem passar. É um autêntico desafio, alegre e difícil ao mesmo tempo”, afirma Savater. Vamos por partes.
Quem escreve por prazer, gosta de saber-se lido. Quem escreve, não tem também o direito de perder-se em fraseado bonito, ôco e inconsequente. Tem que ser simples e rápido, pois o articulista é um sequestrador do tempo de seus leitores e imagina poder criar uma espécie de “síndrome de Estocolmo” em que refém e sequestrador possam vir a gostar um do outro. O articulista deve saber sequestrar o leitor da sua realidade, especialmente o escrevinhador dominical que compete com a preguiça, o sol, o mar, o rio, a televisão, o cinema, o futebol, o ofício religioso e o velho e bom livro ali do lado.
Savater fala dos artigos de Chesterton (Gilbert Chesterton, escritor inglês, falecido em 1936) e diz: “nada por aqui, nada por ali, e de repente surge uma brevíssima teoria sobre o que quer que seja, em que se concentra mais pensamento e mais sabedoria que em qualquer volume filosófico escrito por alguns de meus colegas acadêmicos… Para essa escória, nada mais respeitável que o pedantismo que ocupa calhamaços e vem com notas de rodapé”.
O segredo parece estar nisso, sair falando sobre coisa e lousa e,de repente, passar uma ideia, mínima que seja, como a de se mostrar aos filhos o suplemento infantil em uma atitude sábia, para incutir-lhes o hábito prazeroso da leitura.Pois ler nunca é tempo perdido, mesmo que o escrito não seja bom. Nesse caso, exercitou-se, no mínimo, o juízo crítico. No máximo, pode-se virar a página.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 30/07/2000.

