Um dia desses fui tomar café em um flat da orla. Alta estação, muita gente com a parafernália típica de turista ao lado das mesas.
De repente, um senhor colega em idade do FHC, mas já assumido como velho, pede a uma garçonete para tirar uma foto dele ao lado do “buffet” e ainda fez um gesto como se tivesse bebendo alguma coisa. Logo após, no “lobby” vi que ele fazia parte de um grupo de terceira idade que estava em desses pacotes turísticos que prometem o céu e a terra, sem dizer que falar com Deus é opcional.
Vi muitos deles em passos arrastados, uma das características do declínio corporal. Apesar disso, pareciam vivazes, acompanhados de suas gordas mulheres, subindo, com a ajuda de um guia, os degraus de um ônibus de turismo que atrapalhava o trânsito e impedia, inclusive, que meu carro saísse.
Fiquei quieto, esperando o último subir e, nesse entretempo, me perguntei porque muita gente só começa a viajar quando o corpo já não é tão ágil e os programas parecem longos e cansativos, a ponto de, no horário da tarde, ser comum que muitos turistas cochilem, enquanto os guias se esgoelam falando das belezas do lugar.
Viajar é, para mim, uma das melhores formas de se aumentar conhecimento, de crescer como pessoa, de entender as diferenças entre os povos, ter uma exata dimensão do local em que vivemos e captar o ridículo dos que viajam sem norte, sendo guiados como cordeirinhos em visitas tão superficiais quanto os seus interesses.
No século XXI que já desponta, em poucos meses, de parto natural, seria importante que os colégios, as faculdades, as associações de classe, os clubes de serviço, as congregações religiosas e, especialmente, as famílias, estimulassem viagens a seus membros. Sei que alguns já fazem isso, mas são as exceções.
Viagens para poucos e escolhidos lugares, onde a pessoa tivesse mais tempo de conhecer o que lhe interessasse, de passear sem destino, de tomar um ônibus e se misturar com o povo, em meio a feiras, comícios, passeatas, concertos, ofícios religiosos e nos parques onde muita gente lagarteia olhando o céu.
Não valem as viagens a Disney, as compras em New York, nem as excursões de três semanas à Europa com visitas a cinco ou seis países, onde o que mais se faz é mala e tomar trem, avião ou ônibus. O que deve valer é sair do quadrado do imposto por agentes de viagens, muitos deles sem cultura, loquazes em propagar maravilhas de lugares de onde recebem comissões.
Para isso, é preciso aprender a viajar cedo, sem medo de errar, sem compromissos, por exemplo, com grupos onde sempre um se perde ou atrasa, prejudicando os demais. É preciso mudar, pois como já dizia Camões há quinhentos anos: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a esperança”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/08/2000.

