Eu posso até disfarçar para os outros a minha burrice, mas não consigo me enganar. Muitas vezes, as pessoas me chamam de inteligente e retruco que estão enganadas. Pensam ser falsa modéstia ou provocação de elogios. Nada disso, é a consciência, a cada dia aumentada, do agravamento da minha burrice.
Ora, dirão vocês, como uma pessoa revela de público ser burra. E muitos dirão, até que enfim, ele confessou. Acontece estar eu meio ressabiado com os erros cometidos. E o pior não é só cometer. É repetir.
Muitas vezes eu utilizo a desculpa de ser canhoto e, em decorrência disso, justifico cair de escadas, bater com a cabeça na parede, tropeçar em batentes, entrar em rua na contramão etc. Poderia dizer, por ser verdade, em minha defesa, que sou distraído. Vá lá que seja, mas repetir os mesmos erros, sempre, só pode ser algo mais que distração.
Uma vez, em Londres, deixei de morrer por um triz, olhei para um lado da rua e não vinha veículos, atravessei fagueiro e quase ia esmagado por um daqueles ônibus de dois andares. É elementar: se eu fosse inteligente, deveria ter colocado na minha cachola que a mão de direção na Inglaterra é a inversa da do Brasil.
Tem um cara que com quem não falo desde menino. À época, ficamos “mal de sangue-a-fogo”. O problema é que tento me lembrar a razão e não consigo. A próxima vez que encontrá-lo, vou perguntar: Você pode dizer por que deixamos de falar?. O ruim será se ele ainda lembrar e tiver raiva.
Este ano já fechei, em três ocasiões diferentes, a porta da minha casa com a chave por dentro. A primeira, foi exatamente na manhã do dia primeiro de janeiro. A última, anteontem. Nesse dia, além de trancar a casa, eu usei o micro-ondas de forma errada, ocasionando a quebra de um prato, queimando toda a comida e deixando a cozinha cheia de fumaça.
Não espalhem para ninguém: vez por outra, eu mesmo ligo para o meu celular, tentando encontrá-lo. Pode parecer engraçado, mas é verdade.
Já fiz teste para saber se estou bom do juízo e o médico riu para mim, como a dizer: que juízo?
Recomendaram-me tomar um remédio natural excelente para a memória capaz de evitar esses erros frequentes. O problema é ter esquecido o nome do remédio e não lembrar do nome da pessoa que me recomendou.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/08/2000.

