ESTAR CRIANÇA

Quinta-feira foi o Dia das Crianças. É claro que a mídia tem interesse em fomentar os dias disso e daquilo. Mas, nós também vivemos de símbolos, arquétipos, lembranças, ícones, motivações e sonhos. Sonhemos, então em estar criança.
Os que já passaram há muito do tempo de ser criança poderiam aproveitar seus imaginários para revisitar as crianças que foram. Poderiam ver o “making off” de suas infâncias, analisar com olho adulto e serem mais indulgentes com os pais e irmãos. Olhar de onde vieram seus pais, quais eram os seus valores, as suas formações e as lutas que travaram para ocupar seus lugares neste tão vasto mundo. É preciso, repito, ver o passado com olhar indulgente, sem a lente zoom que particulariza e aumenta os defeitos. Os nossos pais talvez sejam como nós, mas no tempo deles.
De um tempo para cá, especialmente nestes cem anos freudianos, os pais passaram a responder por muitos dos nossos erros, das nossas frustrações, dos desencontros existenciais e por ai vai. Os pais foram ficando na berlinda com os estudos edipianos e as visões de Electra. De princípio, todos os pais eram castradores, cerceadores de nossos desejos, balizadores de nossas condutas e indutores dos nossos destinos. Depois, veio o contraponto. Deixaram de proibir. Liberaram geral e são culpados por omissão, dos mimos em excesso ou pela falta de tempo para os diálogos necessários entre pais e filhos.
Cá entre nós, na minha revisita pessoal, me vejo cercado de irmãos com idades parecidas e gostos díspares, na grande mesa da sala de jantar com uma jovem mãe dedicada, equilibrada e ciosa de suas responsabilidades. Um pai mantenedor e coadjuvante no processo de tentar transformar aquela “miuçaia” de gente. Sendo o mais velho, precisava ser exemplo e, na verdade, não sabia ser nada, era massa em formação em meio a um mundo que se encantava com a televisão, a liberação feminina, a pílula anticoncepcional, a militância estudantil, a magia dos livros, os enlevos dos filmes e a obrigação de estudar o que muitos professores mandavam e eu já intuía que pouco valeria na vida real. Foi assim comigo, não deve ter sido muito diferente para vocês, humanos e contemporâneos que somos.
Mas falava de estar criança. Estar criança é não complicar, é tentar dormir o sono dos justos, diminuir a autocensura, ouvir histórias, rir de qualquer coisa, meter a mão em tinta fresca, embevecer-se, não levar a vida muita a sério, acreditar em sonhos e não ter medo de bicho papão. Estar criança é muito mais que isso. Parece ser um processo individual de resgate, como se fora uma forma proustiana de desencavar porões para retirar apenas e nada mais que brinquedos, mesmo que simples.
Como diria Bernardo Soares, um dos heterônimos de Fernando Pessoa: “Sim, julgo, às vezes, considerando a diferença hedionda entre a inteligência das crianças e a estupidez dos adultos, que somos acompanhados na infância por um espírito da guarda, que nos empresta a própria inteligência astral, e que depois, talvez com pena, mas por uma lei alta, nos abandona, como as mães animais às crias crescidas, ao cevado que é o nosso destino”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/10/2000.

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