NARCISISMO

Para começo de conversa, é bom que se fale sobre a razão de se chamar alguém de narcisista. “Fulano é um narcisista” ou “este é um comportamento narcisista”. Por quê se diz isso?
Segundo a mitologia grega, Narciso era um jovem por quem a ninfa Eco se apaixonou. Eco fora privada da fala por Hera, a esposa de Zeus, e só podia repetir as últimas sílabas das palavras que ouvia. Incapaz de dizer a Narciso de seu amor, foi por ele rejeitada e morreu de tristeza. Os deuses puniram então Narciso por seu desamor, fazendo-o apaixonar-se pela própria imagem. Um dia, quando olhava sua face em uma fonte, ficou enamorado por ela e recusou-se a abandonar o local. Morreu de debilidade e transformou-se numa flor (o narciso) que cresce à beira das fontes e mananciais. A psicanálise, a psiquiatria e a psicologia apropriaram-se desse mito e, a partir dele, começaram a desenvolver seus estudos e teses.
Essas observações são mero produto da leitura do livro “Narcisismo, negação do verdadeiro Self”, de Alexander Lowen, Editora Cultrix, e decorreram da verificação óbvia e real de que o narcisismo está em franca ascensão em todas as camadas sociais e faixas etárias. Como não tinha conhecimento sobre assunto tão sério, resolvi dar um passeio sobre o livro em referência. Do que li, ouço e vejo, ficou claro que o narcisismo sinaliza uma perturbação da personalidade caracterizada por um investimento exagerado na imagem da própria pessoa à custa do self (ego, o eu, a individualidade).
Avulta também que os narcisistas estão mais preocupados com o modo como se apresentam do que com o que sentem, daí negarem quaisquer sentimentos que contradigam a imagem que procuram apresentar.
Via de regra, são egoístas, concentrados em seus próprios interesses, mas carentes dos verdadeiros valores do self – notadamente, auto expressão, serenidade, dignidade e integridade. Parece faltar aos narcisistas um sentimento do self derivado de sensações corporais. Sem um sólido sentimento do ego, vivem a vida como algo vazio e destituído de significação. Muitos dos narcisistas são bem-sucedidos em suas atividades profissionais ou negócios, o que sugere uma divisão entre o que realizam no mundo e o que acontece em seus íntimos.
Por outro lado, apresentam combinações de ambição intensa, fantasias de grandeza, a par de sentimentos de inferioridade e excessiva dependência da admiração e aprovação externas. Olhem as colunas sociais, joalharias, salões de beleza, boutiques, academias de ginástica, igrejas, universidades, reuniões sociais, entidades de classe, clubes, empresas, imprensa, profissionais liberais, os poderes constituídos e vocês identificarão muitos narcisistas. Alguns temporários, outros incuráveis.
Os narcisistas têm a clara necessidade de ser perfeitos e de fazer com que os outros os vejam como tais. É bom estabelecer uma distinção entre a preocupação saudável com a busca da perfeição profissional e da própria aparência, baseados no senso do self, e o deslocamento da identidade do ego para a imagem, o que é característico do estado narcisista.
Ora, dirão vocês, se o narcisismo é um comportamento patológico que fica patente, apesar dos disfarces, adiantaria falar sobre ele em um simples suelto? Entendo na minha visão laica que, pelo menos, algumas pessoas poderão fazer uma autoanálise ou identificar melhor as suas companhias e tirar, quem sabe, algum benefício, pois como disse Shakespeare há 400 anos em “Muito Barulho Por Nada”, Ato III, Cena I, sobre o narcisista: “tem-se em tão alta conta o seu espírito que tudo o mais para ele é sem valia”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 22/10/2000.

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