FREUD E OS SONHOS

Embora leigo, não resisto à ideia de fazer uma leitura de “A Interpretação dos Sonhos” de Sigmund Freud, obra que está completando 100 anos. Ela nos remete a sentimentos de alegria e perplexidade.
Alegria, por estarmos procurando respostas coerentes para esse ainda grande mistério que é o sonho. Perplexidade, por ser um assunto de múltiplas interpretações, ensejando visões de todo tipo, em que se misturam conhecimento com religião, culpa com desejo, enfim, um amálgama. É claro que o estudo dos sonhos continua a ter um lugar destacado na psicanálise e sendo “A Interpretação dos Sonhos” uma referência, apesar de escrita há cem anos, não há como desconhecer o que o próprio Freud considerou como a mais valiosa descoberta que tivera a felicidade de fazer.
O sonho parece ser o fenômeno da vida psíquica normal em que os processos inconscientes da mente, incluindo o aprendizado, são revelados de forma bastante clara e acessível ao estudo.
A interpretação dos sonhos trás a tona os conteúdos mentais reprimidos ou excluídos da consciência pelas atividades de defesa do Ego. A parte do Id, cujo acesso à consciência foi impedido, é a que se encontra envolvida na origem das neuroses. Daí o grande interesse de psicanalistas pelos sonhos dos pacientes. Ora, se os sonhos são fenômenos comuns e normais, devem servir para ajudar a identificar e entender os processos desencadeadores dos sintomas neuróticos.
Fica claro que os sonhos, além da mera compreensão dos processos e conteúdos mentais inconscientes em geral, revelam o que foi reprimido ou excluído da consciência. Para o fundador da psicanálise até os sonhos de angústia, os pesadelos, os que fazem as pessoas acordarem no meio da noite, são realizações de desejos.
Ele justifica essa teoria agrupando os sonhos em três tipos ou categorias: Primeiro – sonhos em que a realização dos desejos está tão clara que quebra as regras que se estabeleceria entre as forças motivadoras do sonho: o desejo de dormir e a realização disfarçada dos desejos inconscientes. Segundo – os sonhos punitivos ou masoquistas, quando os “sonhadores” estão vivenciando momentos satisfatórios em suas vidas. Passam a ter um caráter punitivo ou masoquista ao surgirem como pesadelos que estragam o prazer dos bons momentos vividos acordados. Terceiro – sonhos em que a angústia é produzida por fatores alheios a eles próprios: doenças físicas, entre outros. Nessas hipóteses, os desejos inconscientes que, em outra situação, teriam ocasionado esse mesmo desenvolvimento de angústia, aproveitam para surgir sem disfarce. Posteriormente, Freud faz menção a uma única exceção a essa fórmula, a dos sonhos traumáticos.
Para Carl Jung, um dos seguidores de Freud: “O sonho é uma porta estreita, dissimulada no que tem a alma de mais obscuro e de mais íntimo; abre-se sobre a noite original e cósmica que pré-formava a alma antes da existência da consciência do eu e que a perpetuará até muito além do que possa alcançar a consciência individual”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/12/2000.

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