REFLEXÕES DE FIM DE SÉCULO

Pois não é que os tais de fim de ano, de década, de século e de milênio vão nos levando, mesmo sem querer, a fazer reflexões?
A primeira delas é: o que andamos fazendo neste mundo de meu Deus? Como nos livrar dos que roubam o nosso tempo e, paradoxalmente, cuidar dos dias e horas em que não fazemos nada, sós ou acompanhados, desperdiçando-os?
Este foi o século da ciência e da tecnologia, dos equipamentos criados para destruir (bomba atômica, gases tipo napalm, mísseis e outros) e facilitar as nossas vidas. No ano 1900 não tínhamos quase nada do que utilizamos hoje. O que nos foi agregado em matéria de felicidade ou, para ser pós-moderno, de qualidade de vida?
Com a geladeira, o cinema falado e colorido, as máquinas de lavar e secar, a televisão, o vídeo cassete, o ar condicionado, o fax, o telefone celular, o computador, o carro com airbags e freios Abs, o avião a jato, o micro-ondas, o cartão de crédito, as comidas congeladas etc. ficamos mais felizes ou mais neuróticos?
Nossos desejos de consumo foram ficando sem limites e isso nos levou a quê? Para que isso tudo foi feito? Por coincidência, ouvi ontem em uma emissora de rádio que a média de tentativas de suicídio nesta cidade de 2 milhões de habitantes é de dez por dia ou 3650 por ano. Dos que tentam, dez por cento conseguem.
A mídia nos impele a ficar por dentro de tudo, sabendo de tudo e desfrutar o que está acontecendo. Mas já se sabe que a maioria das pessoas só utiliza em torno de cinco por cento do que lhe é oferecido, em todos os sentidos. Falamos em bem-estar, lazer, afetividade, desejos, amizade, ecologia, cuidar do corpo, mas realmente estamos comprometidos com isso? As pessoas parecem estar fugindo dos outros e de si mesmas, em nome do quê?
Este também foi o século da penicilina, valium, prozac, gardenal, anticoncepcional, isordil, enfim, de tantos remédios feitos para prevenir, melhorar ou curar, mas as doenças se renovaram, os vírus se multiplicaram, as bactérias estão aqui e ai e a ciência de tantas universidades e laboratórios não sabe o que fazer com muitos tipos de canceres e ainda parece estar longe a cura da Aids que já afeta 36 milhões de pessoas, isto sem falar na fome endêmica da África, enquanto alimentos são desperdiçados nos países do Primeiro Mundo.
Não é catástrofe, nem pessimismo, mas não podemos viver em um mundo do faz de conta. Há, por outro lado, muita coisa boa acontecendo e a realidade só pode ser mudada com ação e não com avestruzes. Vá fazendo a sua parte, pare de conversa mole e mude você o que achar que está errado. Pare de dar valor a coisas, pessoas e instituições sem sentido. Só a partir da sua própria conscientização, as coisas, as pessoas e as instituições poderão ir mudando. Leva tempo, mas precisa começar a ser feito. Agora é hora.
O que estamos refletindo é o que vivemos neste instante. Amanhã poderemos pensar diferente, mas já é um caminho. Você não é obrigado a concordar conosco, mas é ruim não pensar, esperar por governo, políticos e acreditar em promessas. Duvide e aja. Rememore Einstein: “Uma coisa só é impossível até que alguém duvida e acaba provando o contrário”.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/12/2000.

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