Descobri um texto do escritor Gustavo Barroso da virada do século passado. O filme, se assim podemos chamar, não é novo. As expectativas de fim de século, sejam reais ou imaginárias, mexem com o nosso comportamento e podem desapontar. Vamos ao que diz Gustavo Barroso em seu livro “O Consulado da China”: “A 31 de dezembro tive licença de ficar na rua até depois da meia-noite. Só um grande acontecimento permitiria isso: a comemoração da passagem do século… O estúpido século XIX, como o denominou alguém, era substituído pelo século XX… Que decepção! Pensava que a passagem de um século para o outro fosse muito mais interessante, que houvesse qualquer alteração na ordem das cousas naturais, pelo menos assim como um estalo no mundo… que haveria de mais em ouvir-se o rumor das mudanças dos séculos? Como não pretendo assistir a outra passagem de século, força é contentar-me com essa”.
Cem anos são passados e, certamente, não assistiremos o dealbar do século XXII. O bom é nos alegrarmos com o que vai chegar daqui a uma semana, considerando que o mundo não é o mesmo da época de Gustavo Barroso. Agora temos a globalização e a ação de uma mídia predatória que compara pessoas, incita desejos e fomenta banais necessidades. Mas, estamos vivos e isto importa.
Hoje é o penúltimo domingo do ano. Neste, estaremos vivendo o Natal. No próximo, à espera dos novos anos, década, século e milênio. É sempre bom não ficar desapontado. É sábio não abortar sonhos, cumpre pari-los e deixar-se ficar enlevado em meio ao misto de euforia e depressão que embala as pessoas nessa ciclotimia própria desta época, já de muitos conhecida. Mas essa bipolaridade não deve embotar os nossos sentidos, apesar da realidade que nos espreita, como já o fazia há cem anos com o jovem Gustavo Barroso, sempre para cobrar o devido e o indevido.
Ao contrário do que dizia o compositor, dá para ser feliz. Basta ter capacidade de abstração e parar um pouco de gerenciar problemas pois, segundo o filósofo Marx, os problemas só existem porque temos a capacidade de resolvê-los.
Abrace os amigos. Confraternize. Feche os olhos, sonhe. Chute o balde dos desenganos e plante sonhos, mesmo que tenha que regá-los com suas lágrimas. Afinal, lágrimas devem ser vertidas, sob pena de causar estragos e, nesta época do ano só valem – se é que – os estragos com o beber e o comer. Torne-se simples, não dá para complicar quando até os abraços formais se transmudam pela essência da bondade que ainda existe em cada ser humano.
Feliz Natal. Sem medo. Sem culpa.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/12/2000.

