O TITANIC E O 1999

Foi bom para o Brasil o filme Titanic ter passado em 1998. Foi bom para o Brasil que o maior número de pessoas tivesse tomado conhecimento do afundamento daquele navio. A história do Titanic tem mais de 86 anos mas, para a maioria dos que viram o filme, aquilo estava acontecendo ali, naquele instante. Além do romance água com açúcar, com lágrimas e suspiros, ficou claro que faltavam botes salva-vidas; não se diminuiu a velocidade de 41km/hora; carecia de modéstia o seu construtor Morgan Islay e o comandante Smith foi displicente (inexistiam meros binóculos para os vigias em meio a tanto luxo). Junte tudo isso e se tem facilmente os porquês do naufrágio na madrugada de 14 de abril de 1912.
Antes do encontro fatal com o iceberg, o navio Califórnia, que navegava próximo, avisou do perigo. Posteriormente, outro navio, o Balthic, voltou a avisar. Resumo das águas: não faltou aviso. O que faltou? o elementar: simples binóculos, mais cuidados para mudar a rota, diminuir a velocidade e considerar sempre o perigo.
E daí? O que isso tem a ver com o iniciante ano de 1999? Todos estamos sabendo que vem iceberg por ai, a rota atual é de colisão, é preciso alertar sempre o comandante e os avisos semelhantes aos passados pelo California e o Balthic já foram dados.
Cada um de nós é um passageiro de terceira, segunda ou primeira classe desse grande navio que é o Brasil. Há anos ele navega em mares revoltos. Não é um Titanic de primeira viagem e nem todos os passageiros são deslumbrados. Não faz mal que diminua um pouco a velocidade. É preciso cuidado com o que faz o presidente FHC ( o comandante Smith) e não acreditar muito no que dizem os jornalistas. Na época da única viagem do Titanic da Inglaterra aos Estados Unidos, os jornalistas diziam que nem Deus afundaria aquele transatlântico. Todos erraram. Aliás, jornalista erra muito, graças a Deus. Então jornalista metido a economista é que erra mesmo.
Se falta dinheiro para comprar salva-vidas e botes para todos, que tal gastar uns míseros reais com simplórios binóculos? Ora, todos estamos avisados que vem iceberg por ai e isso é bom. Estaremos prevenidos. Todos ficaremos de binóculos e gritaremos para o comandante Smith, desculpem, o presidente FHC, sobre o perigo.
É preciso parar a festa e a gastança e ouvir o som dos mares no meio da noite. O Titanic tinha 16 compartimentos estanques, o navio Brasil tem centenas, milhares, milhões. Nós somos esses compartimentos.
Nós temos a capacidade de poder acionar os botões na hora certa e não deixar que esse colosso que é o Brasil naufrague por falta de avisos. Não fiquem tristes pela diminuição da velocidade, é preciso. Os icebergs têm uma rota só, o Brasil sabe – e como sabe – mudar de rota.
Acreditem em mim, comprando meros binóculos poderemos ficar alertas, sempre. Eu já comprei o meu e tenho certeza de que, na superfície e no fundo, os icebergs não passam de água congelada e nós somos um país cheio de sol que derrete tudo. Gelo então é pinto.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/01/1999.

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