O ano terminou, morreu. Outro ano nasceu e também morrerá. Os anos tem ciclos definidos e só podem fazer bem ou mal durante certo tempo. Por exemplo, este ano que terminou, ou morreu, só serve agora para a história e as estórias que dele se contarão. Quando muito, ficará na memória das pessoas, pelo que representou em suas vidas.
As pessoas são diferentes. No início de cada ano e, dizem, nos aniversários, recebem uma carga de energia transformadora, quando parece eclodir uma espécie de dilúvio interior que as compele a colocar em suas arcas o que vale a pena escapar. Esse dilúvio, esse cataclisma, é um processo a que todos somos obrigados a passar. Seria, talvez, o que se diz em psicologia: um rito de passagem. É como se recebêssemos um aviso do eu profundo, dizendo: explore seus sentimentos e reformule sua maneira de encarar as pessoas e a vida e aí você encontrará suas próprias respostas. Nós podemos ter todas as respostas. Muitas vezes não queremos ou sabemos fazer as perguntas certas.
No ano iniciante (e no dia do aniversário, vá lá) o espelho não deve só refletir a nossa face, mas, se mudarmos o paradigma e encararmos a possibilidade de, ao mesmo tempo, sermos responsáveis e livres, poderemos ter consciência de que a nossa vida tem sentido.
Os nossos paradigmas são, em suma, a maneira como vemos e encaramos o mundo e as pessoas. Imaginemos, por exemplo, que desejamos conhecer Paris com um mapa que nos deram. Na impressão do mapa, aparentemente certo, tem o nome Paris, só que a cidade é outra, por um erro gráfico. Não vai adiantar procurar o Louvre, a Notre Dame e o Boulevard Saint Michel, pelo simples fato do mapa não ter nada disso, apesar do nome Paris lá em cima. Logo, é preciso descobrir se o mapa está certo e, se for o caso, trocar de mapa. Às vezes, o que parece, não é, apesar do escrito.
Nas nossas cabeças, como diz Stephen Covey, escritor americano, nós temos muitos mapas. Os mapas podem ser de dois tipos: mapas de como as coisas são, ou a própria realidade (mapas reais) e mapas de como as coisas deveriam ser, segundo os nossos valores pessoais (mapas imaginados).
Cada um faz sua vida a partir desses mapas. Raramente procuramos descobrir se o mapa está certo e, às vezes, usamos os errados sem perceber. Quem usa o mapa errado não chega a lugar nenhum ou, quando muito, ao lugar para onde não queria ir.
Além de tudo isso, é preciso saber o que queremos quando estamos com o mapa certo nas mãos. Não é só a mera posse do mapa que nos fará encontrar os caminhos. É preciso saber ler e entender as estradas e as mudanças que ocorrem nos mapas reais. Muitas vezes, chegamos a determinado lugar que sonhávamos e exclamamos: era isso?
Assim é a vida. Os mapas são cartas que precisam ser atualizadas em função da realidade, dos nossos desejos, do nosso crescimento e das próprias mudanças da vida e do mundo que somos obrigados a absorver.
Resumo da história dos mapas: A maneira como vemos o mundo e as coisas são a fonte do nosso pensar e agir. Duas pessoas podem ver uma mesma coisa de uma forma diferente e ambas terem razão. Isto não é uma questão lógica, mas psicológica. É célebre o desenho em que uns veem uma moça jovem e outros, de olhar mais acurado, descobrem uma velha de nariz adunco. Questão de ponto-de-vista.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/01/1999.

