EU, FILHO. EU, PAI. EU, FILHO

Todos nós, com o tempo, vamos ficando revisionistas. O que era, passa a não ser mais daquela forma, as tintas tomam tons mais amenos e a acidez das críticas perdem as peremptoriedades (“Todo esse discurso não me saiu assim, de vez, enfiado naturalmente, peremptório…“, M.Assis, Dom Casmurro, pág 75).
Estou em fase muito brasileira de leitura. Pode ser um espasmo contra essa globalização, quem sabe. O fato é que ando relendo e lendo autores brasileiros. Uns dias desses me peguei relendo Machado de Assis (Dom Casmurro). Que beleza. Outro fim de semana e lá fui eu descobrir o Zuenir Ventura (vocês que ainda não leram “Mal Secreto –Inveja?”, cuidem de fazê-lo) de quem fiquei admirador e amigo; depois veio o Luiz Fernando Veríssimo, com quem penso ter intimidade, pelo longo trajeto nas deliciosas páginas de seu pai, Érico Veríssimo.
A propósito de Luiz Fernando Veríssimo, faço de conta que não li “A Gula”. Esse livrinho magro (130 páginas), com muitos ingredientes, uma pitada de erudição enológica, personagens fracos e envenenamentos de segunda classe que fariam a Agatha Christie torcer o nariz. Resultado: dá fastio. Gula, nunca.
Mas o que vale, no caso de hoje, nestas leituras brasileiras, começa com o meu título: “Eu, filho. Eu, pai. Eu, filho”. Carlos Heitor Cony, escritor e jornalista, a quem todo leitor de jornal conhece ou deveria conhecer, resolve revisitar as relações com o seu pai, jornalista que quase deu certo, já morto. E o faz com olhos de um homem maduro, já setentão, o que lhe permite sempre dourar a pílula e transformar um pai comum, sem grandes feitos e muitos defeitos, em um tipo que vai nos apaixonando com seus quase acertos, seus projetos inacabados, a preocupação com a educação dos filhos, o microcosmo de seu mundo suburbano e uma mitomania que se transforma em folclore.
Cony usa em seu livro “Quase memória, quase-romance” um recurso interessante: um pacote misterioso que recebe de seu pai, por um portador, dez anos após sua morte. E esse pacote vai sendo uma espécie de fio condutor (seria o barbante que o envolvia?) que, ao final da história, já não tem tanto sentido conhecer o seu conteúdo. Tudo está exposto, com ou sem fraturas.
Além do quase-romance, há muitas leituras nas entrelinhas de “Quase Memória”. As três fases da relação pai e filho. Pai e filho na infância deste; as relações filho e pai na maturidade daquele; e a (in)dependência do pai ao filho às vésperas da morte. Desprovido de pompas e pleno de essência, “Quase Memória” é um “revival” a que todos estamos sujeitos a fazer, absorvendo fatos e absolvendo pessoas.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/02/1999.

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