Assisti há alguns dias a uma entrevista do sociólogo Domenico De Masi concedida ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura de São Paulo. Posteriormente, li uma entrevista do mesmo De Masi à revista Exame. Para concluir, descobri, entre os meus livros, “A Emoção e a Regra”, uma coletânea de ensaios sobre grupos criativos na Europa entre 1850 e 1950, organizado por Domenico De Masi e editado pela José Olympio.
Para quem nunca ouviu falar em Domenico De Masi eu direi que é italiano, 61 anos, sociólogo do trabalho que, além de ser professor universitário em Roma, vive pelo mundo afora a dar palestras. Quem estiver interessado em ideias novas, com um excelente respaldo cultural e estético, é bom conhecer o trabalho de De Masi.
Por ora, para justificar o título do artigo, ficarei apenas no livro “A Emoção e a Regra”, especificamente no ensaio feito por Emma Gori sobre o grupo de Bloomsbury. Nesse ensaio de 40 páginas se pode conhecer o surgimento, o desenvolvimento e o papel transformador de um punhado de pessoas à frente de seu tempo. Desse grupo que se reunia no bairro de Bloomsbury, na cidade de Londres, nos primeiros anos deste século, fazia parte gente de todos os matizes culturais que se reunia pelo prazer de estar junto e, ao mesmo tempo, trocar ideias sobre o que estava acontecendo no mundo.
Virginia Woolf (escritora famosa e mulher de comportamento liberado), Leonard Woolf (editor e marido de Virgínia), Clive Bell (negociante de arte e marido de Vanessa, irmã de Virgínia), Duncan Grant (pintor), Vanessa Bell, Maynard Keynes (economista famoso em todo o mundo) e tantos outros eram os integrantes desse grupo diletante que se reunia sob dois nomes. Um deles era a Sociedade dos Apóstolos(Apostles Society) e outro, pasmem vocês, Sociedade da Meia-noite (Midnight Society) que se reunia às sextas-feiras à meia noite.
Ora, perguntarão vocês, o que é que essa lenga-lenga tem a ver com os dias de hoje e o precioso tempo que gastamos para ler este artigo? Simples. Estou tentando demonstrar que, se há quase um século, pessoas diferentes se reuniam para trocar ideias, essa carência ainda hoje persiste. O corre-corre que nos estressa e o isolamento em nossos trabalhos demonstra a necessidade de nos reunirmos em grupos para deixar que surjam coletivos criativos. Para isso existem os clubes de serviços, as associações de classe, os clubes sociais, as entidades culturais e as científicas. Além dessas organizações formais, existem os grupos informais de amigos (como o de Bloomsbury) das mais diversas profissões e visões que se gratificam em jogar conversa fora. Na realidade, não estão jogando conversa fora, pois cada um relata as suas experiências e fantasias, tornando a discussão rica e proveitosa.
Da minha parte eu faço grande fé em grupos. Sejam formais ou informais. Desde adolescente tenho participado dos mais variados grupos. Atualmente, sou diretor, conselheiro e membro de várias entidades. Além disso, tenho meus grupos informais de amigos. Um deles tem mais de 25 anos.
Permaneço até o instante em que a relação entre os pares é espontânea, instigante e gratificante. Na hora em que a mera obrigatoriedade, a mesmice e a futrica surgem, eu dou um tempo ou saio. Se você faz parte de grupos, meus parabéns. Você está utilizando um antioxidante para o corpo e para a mente. Se você ainda vive isolado, descubra a sua turma. Não se preocupe se alguém ou alguns não gostarem muito de você, isso pode ser prova de que você não é o que eles são. De minha parte, nunca vi uma pessoa que fosse unanimidade ser ou fazer alguma coisa.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 11/04/1999.

