As coisas do mundo mudam muito rápidas. Fui criado no tempo da mãe tempo integral. Os filhos e o marido eram o seu universo. E o restante, orações. Mulheres jovens reuniam os filhos à seis da tarde para “tirar” o terço. Mulheres aguardando o marido para mandar servir o jantar e, se o marido atrasava muito, corriam para o quarto e choravam quietas para os filhos não ouvirem. Mulheres, muitas delas envelhecidas aos 40 anos, se comprazendo em manter os filhos limpos, sadios e estudando. Mulheres “tementes a Deus”, com muitos filhos, empregadas ou irmãs e tias ajudando a cuidar da casa, o marido reinando absoluto. Provedor e ditador.
Hoje, as mães são fruto de uma revolução feita pelas próprias mulheres, sem a ajuda dos homens, nestas últimas décadas, à custa de muito sacrifício, de batalhas públicas e privadas assegurando-lhes uma nova dimensão.
As mães de hoje são outras, enquanto cuidam do filho insone fazem uma tarefa do seu trabalho ou arriscam o olho em um livro ou numa televisão multifacetada abrindo-lhe as portas do mundo, sejam cafonices, pieguices, devaneios ou a informação em tempo real.
Essas novas mulheres são corajosas, fortes, diligentes, mesclam o dever com o prazer e multiplicam seu tempo para ser mãe, trabalhadora, dona de casa, cuidar do corpo e prender o marido. Esse bicho danado e teimoso querendo criar asas, embora seja um mero bípede e, muitas vezes, não sabe nem onde pisa.
A nova mãe não é um estereótipo, é um ser mutante tentando conviver num mundo novo, lado a lado, com um parceiro incapaz de esconder suas fraquezas, pois visíveis. Divide despesas, faz orçamentos, leva filhos a médicos e dentistas, cozinha ou compra congelados, copia modelos de vestidos, aproveita liquidações, estuda e/ou trabalha fora, briga por vaga em escola gratuita ou por mensalidades mais baixas e defende seus pontos de vista nas reuniões de pais (e mães) e mestres, integra uma turma de amigas, possui a liberdade oferecida por um celular e teme o futuro. É um ser estressado como se fora um homem, trabalhando, às vezes, mais que ele e se quer bonita, alegre e saudável.
Ela só deixa de trabalhar nos últimos dias da gravidez, vai para o parto já com uma cinta pronta para recompor a silhueta e 24 horas após está em casa administrando o caos. Decide se vai usar o Diu, ligar as trompas ou pedir ao marido para fazer vasectomia.
Não há um novo homem pronto e acabado para essa nova mulher e mãe. Os homens ainda não se deram conta de sua mãe não servir mais de modelo e os édipos estão sendo sepultados, mesmo à força.
Atônitos, despreparados, procuram em seus pares as explicações sonegadas por suas mentes. Aos poucos, passam a ver sua mulher como alguém exatamente igual a ele e isso lhes amedronta, pois sabem do que são capazes. Se eles são, elas também. Do receio talvez surja o respeito oxigenador dessa relação ainda difusa e confusa tendente a se alicerçar na independência mútua e, paradoxalmente, venha a ser o elo faltante dessa nova convivência.
A essa nova mãe, fruto de todos os acontecimentos deste final de século, nos cabe homenagear como alguém emergente do meio de tantos desencontros entre pessoas ainda não aptas a trilhar o caminho dessa estrada libertária e amedrontadora, por ser desconhecida.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 09/05/1999.

