Nenhum brasileiro de cultura mediana desconhece a discografia de Chico Buarque. Os que estavam na universidade na década de 60 sabem do engajamento de Chico Buarque aos movimentos de rebelião à ordem vigente no país. Os mais novos conhecem também o escritor Chico Buarque, elogiado por uns, criticado por outros e com livros que não fariam nenhuma falta se não tivessem sido escritos.
Por sua condição social, cultura, tratamento poético, linguístico e musical que dá a sua excelente obra discográfica, Chico Buarque constitui uma referência na história da música brasileira na segunda metade deste século. Quem não conhece, por exemplo, Pedro Pedreiro, A Banda, Apesar de Você, Cálice, Meu Caro Amigo, Samba de Orly, Pelas Tabelas, Suburbano Coração, Bancarrota Blues, Carolina, Geni e Não Existe Pecado ao Sul do Equador.
O seu passado de luta, engajamento político, excelente discografia e a sua sofrível incursão literária, não são motivos – pelo menos, no meu entendimento – relevantes e suficientes para a obtenção de um galardão como um título de Doutor Honoris Causa por uma universidade pública.
Sempre tive em alta conta os títulos conferidos pelas universidades, apesar de entender que, algumas vezes, eles são usados para atender aos poderosos de plantão e a visitantes ilustres. Não conheço os mecanismos de escolha, os critérios adotados e, dessa forma, o meu juízo fica meio capenga. Mas uma universidade, teoricamente um centro de decisões equilibradas e austeras, não pode ficar por ai distribuindo títulos honoríficos como o fazem muitas casas legislativas.
Como o próprio nome traduz, um doutor de causa honrosa deve ser alguém que pugnou, no cenário internacional, nacional ou no âmbito da universidade, por causas de grande significação. Até se poderia dizer que Chico fez isso. Mas quantos artistas de bom nível e politicamente engajados deveriam, segundo os mesmos critérios, ser agraciados?
Ao receber o título, em cerimônia fechada, Chico se auto intitulou o “doutor Chico da Mangueira”. Ora, não seria o caso de, aproveitando a oportunidade, falar de suas ideias e projetos para uma universidade mais ligada à cultura popular, à música como instrumento da realidade? Poderia até ter repetido alguns versos seus, por exemplo:
“De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto “(Fado Tropical c/Ruy Guerra), ou
“Não me diga mais quem é você
Amanhã, tudo volta ao normal
Deixa a festa acabar “. (Noite dos Mascarados), ou ainda,
“ Quando é missão de esculacho, olha aí, sai de baixo
que eu sou embaixador”. (Não Existe Pecado… c/Ruy
Guerra).
Pareceu-nos sem emoção o recebimento da honraria e sem nenhuma imaginação a sua fala. Talvez encarnasse o seu antigo heterônimo, Julinho de Adelaide, criado à época da repressão, desejando ser o Doutor Chico da Mangueira.
Tem a fala de Chico Buarque muito ou pouco a ver com um título de Doutor Honoris Causa? Ou estarei sendo um estorvo?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/06/1999.

