TOLICES JORNALÍSTICAS

Recentemente, o francês Philippe Mignaval resolveu reunir em livro as bobagens escritas na imprensa do seu país. Sob o nome de “Le Sottisier des Journalistes”, Mignavil reuniu uma coletânea de bobagens, impropriedades e até, vamos lá, idiotices publicadas em jornais franceses. Tal procedimento, como se verá, não é privilégio de brasileiro. Ainda bem.
Escrever é uma faca de dois gumes. Tanto pode engrandecer como denegrir a imagem de quem escreve. Diz o jornalista português Edson Athayde, colecionador desses deslizes: “acidentes lingüísticos e semânticos apenas demonstram que a escrita também pode ser uma arma”.
Só para vocês terem uma idéia de como são comuns os erros na imprensa, vou citar dois exemplos brasileiros, de órgãos do primeiro escalão, antes de entrar nos franceses. O prestigiadíssimo Jornal “Folha de São Paulo”, publica, diariamente, no caderno Cotidiano, ao lado da seção “Mortes” um aviso que tem o seguinte título: “O que fazer em caso de morte” – “você deve procurar o serviço funerário do Município de São Paulo pelo telefone (011) 2377000 ou pelo fax (011) 2321203.” Quem é você? O morto, a família?, Quem, afinal?
A revista Veja, edição de 23.06.99, página 39, publicou um quadro (box) com o título: “Eles querem seu emprego”. Em seguida, diz: “O Brasil tem cerca de 30.000 imigrantes que vieram para trabalhar. Saiba quais são os países campeões na exportação de mão-de-obra e quantas pessoas cada um deles mandou para cá até hoje: 5.000(EUA), 2.300(Inglaterra), 1.950(França), 1.800(Japão), 1.750(Alemanha) e 1.500(Argentina). ” Ora, é tão ridículo, os números são tão fora da realidade e a observação furada “quantas pessoas cada um deles mandou para cá até hoje”. Ora, cada um desses países mandou muitos mais imigrantes.Não indicando o período de tempo, a notícia é errada e absolutamente sem sentido.
As tolices francesas são engraçadas. Vamos lá: “Parece que ela foi morta pelo seu assassino”. “Ferido no joelho, ele perdeu a cabeça”. Os antigos prisioneiros terão a alegria de se reencontrar para lembrar os anos de sofrimento”. “O acidente fez um total de um morto e três desaparecidos”. “A polícia e a Justiça são as duas mãos de um mesmo braço”. “Ela contraiu a doença na época em que ainda estava viva”. “O aumento de desemprego foi de 0% em novembro”. ”A conferência sobre prisão-de-ventre foi seguida de um farto almoço”. “À chegada da polícia, o cadáver encontrava-se rigorosamente imóvel”.
E tem mais: “O presidente de honra é um jovem septuagenário de 81 anos”. ” Depois de algum tempo, a água corrente foi instalada no cemitério para satisfação dos habitantes”. “Os sete artistas compõem um trio de talento”. “Um surdo-mudo foi morto por um mal-entendido”. “Este ano, as festas do 04 de setembro coincidem exatamente com a data de 04 de setembro, que é a data exata, pois o 04 de setembro é um Domingo”. “O Tribunal, após breve deliberação, foi condenado a um mês de prisão”. “Quatro hectares de trigo foram queimados. A princípio, trata-se de um incêndio”. “As circunstâncias da morte do chefe de iluminação permanecem obscuras”. “Apesar da meteorologia estar em greve, o tempo esfriou ontem intensamente”. “O velho reformado, antes de apertar o pescoço de sua mulher até a morte, suicidou-se”.
E, para finalizar, esta pérola: “Nossos leitores nos desculpem por este erro indesculpável”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/07/1999.

Sem categoria