INTIMIDADE DEVASSADA

Recebi, de alguns leitores, cartas ou e-mails falando sobre o artigo Intimidade, que publiquei no dia 04 deste. Para quem não leu o referido artigo – e apenas para acompanhar o raciocínio dos leitores que me escreveram – digo que ele tratava do sagrado direito que temos de preservar a nossa intimidade e dos poucos amigos que a conhecem, sem precisar devassá-la, pois dela participam.
Voltando ao que recebi. Escolhi três leitores diferentes, identificados apenas pelas iniciais, que, cada um a seu modo, escreveram sobre o artigo
“Intimidade”. Como os textos são longos, tomo a liberdade de condensá-los.
O primeiro leitor(AJL) limitou-se a remeter o texto muito conhecido “Procura-se de um amigo”, de Vinícius de Moraes. Aí vão algumas partes: “Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir… Deve guardar segredo sem se sacrificar…Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar…Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo dever ser o de amigo…Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive”.
A segunda carta é de uma leitora (LPCC). Diz ela: “Sagradas as amizades. Você já definiu tão bem o que é um verdadeiro amigo. Posso acrescentar? E o que é necessário para que duas pessoas sejam amigas? Algumas afinidades, uma ética rigorosa no comportamento, uma lealdade inquestionável, e, o mais importante, aquela coisa que não se define, nem na amizade nem no amor, que não se sabe porque acontece: o gostar… Com os amigos deve-se fazer como fazem os bancos recadastrar periodicamente. As pessoas infelizmente mudam, e às vezes para pior.”
A terceira carta é de uma leitora do Rio, psicanalista de profissão(TSPO) que escreve: “ Você deve perturbar muito seus leitores… e provavelmente, também, enchê-los de prazer…Você utiliza um recurso que obriga o leitor a se deter, a prestar atenção ao que está lendo. É também um ‘chega prá lá’ que você parece dar, no real, aqueles que, justamente, querem chegar perto demais sem que para isso tenham conquistado o direito. É algo que você usa, desconsertando o invasor, pedrinhas que coloca no caminho como se dissesse que não é tão fácil assim chegar perto de pessoas atentas…Combina a delicadeza da sensibilidade à crueza daquele que não faz concessões… Agora, uma discordância(e ela me cita): “ algumas pessoas se aproximam e dizem que gostam de nós. Ora, como podem gostar do que não conhecem”(termina a citação). E ela continua: “ E eu digo: o pior é que quase sempre os que gostam de nós não nos conhecem. Pelo menos por inteiro. Mas e se nós mesmos não nos conhecemos? E quem pode impedir que o outro goste de uma coisa em nós que ele inventou (idealização)? Ele ( o outro), às vezes precisa, para sobreviver, amar o que não existe. Mas que existe para ele. E logo existe…”
Obrigado aos três.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/07/1999.

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