Já vai bem longe o tempo em que os pais faziam e aconteciam. Hoje os pais, via de regra, pisam em ovos ao falar com os filhos. Quando falo de pais, estou falando do plural de pai, o bicho homem.
Os que foram e são pais nestas três últimas décadas sabem a diferença entre o que viveram, enquanto filhos, e o que tentaram ao quebrar as barreiras do relacionamento humano, estabelecer vínculos de amor e laços de ternura.
Há muitos dilemas no relacionamento pai e filho. É lógico, racional e educativo estabelecer limites, agir com firmeza, mas o coração amolece e a vaca vai para o matadouro. Os filhos, desde cedo, são exímios em testar os pais, pedindo o que podem e não podem, o que devem e não devem. Ao menor sinal de fraqueza o tiranozinho ou tiranazinha vai ganhando terreno e adquire hábitos que, quase sempre, comprometem a sua vida. Como as coisas do mundo não são fáceis, os que recebem tudo podem ficar despreparados para os embates do dia a dia, por toda a vida.
É preciso que se deixe claro o que é certo e errado e isso vai depender dos valores dos pais. Daí é essencial que a relação pai x filho seja baseada na franqueza e não se crie um escudo protetor isolando o filho da realidade. Os erros provocam consequências e isso os pais, mesmo cortando seus corações, devem deixar que aprendam para não repeti-los.
Os filhos costumam exagerar na atenção que necessitam. Nem tanto ao rio, nem tanto à margem. Distribua o seu tempo. Há tempo para tudo e isso não quer dizer que os filhos tenham o direito a usar todo o seu. Você tem compromissos e desejos outros. Use o bom senso e não fique com sentimento de culpa por umas férias necessárias ou um fim de semana para desanuviar o juízo.
Não prometa o que não pode e não fique estabelecendo comparações. Os filhos são severos na cobrança do prometido e não aceitam referências ao filho de fulano ou ao irmão que dá bom exemplo. Os filhos podem até mentir, mas não gostam de saber que seus pais mentem.
É bom que você tenha fé para transmitir a seu filho, mas é ruim que transmita a idéia de um Deus que pune e cobra. O “novo Deus” deve ser solidário e entender as fraquezas de todos nós. É como se fora um Deus-gente ao invés de um Deus-bicho papão.
Não enrole nas respostas. Se não sabe, diga. Um dia o filho vai saber que também não sabe. Não banque o durão. Há uma diferença entre ser firme e duro. As pessoas firmes têm e mostram sentimentos. As pessoas duras escondem ou escamoteiam.
Respeite os medos do seu filho. Não brinque com os fantasmas dele, você ainda tem os seus. Por outro lado, mostre que o medo faz parte da vida e só quando o entendemos é que podemos superá-lo.
Não queira que o seu filho seja você. Ele tem 50% de outros genes e vive um tempo novo que não é o seu. No máximo, queira que ele conheça você para entendê-lo e estabelecer uma relação de paz em que o bem querer não é uma virtude, mas um processo de aprendizado contínuo, a partir da tolerância e do respeito à individualidade do outro.
Posso ter me contradito? Paciência, pai é assim mesmo.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 08/08/1999.

