VIAGENS VAPT-VUPT

Eu tenho me especializado em viagens vapt-vupt. Por minha natureza e atividades acostumei-me a ser rápido. Vejo tudo de forma seletiva, faço sempre o possível, mas ainda tenho tempo de olhar os meus sóis e luas, comprar livros, ver teatro, identificar e conversar com tipos estranhos, algumas poucas compras e volto. Não é não gostar de ficar. É claro, gostaria de permanecer sempre um pouco mais. Há, no entanto, um sentimento de urgência e responsabilidade me trazendo de volta, sempre.
Isso, entretanto, não me impediu de ver o sol da meia noite em Narvik, no Polo Norte, de participar de cerimônias budistas em Tóquio, de andar de riquixá em Seul, de fotografar as cataratas do Niágara quase congeladas, voar sobre os Andes, tentar esquiar nos Alpes, andar de camelo no Cairo, tomar um pisco em Lima, perambular pelos corredores da Casa Branca, subir as escadarias das pirâmides do México, ver dois papas em Roma, pisar na calçada da fama em Los Angeles, ser roubado em Nova Iorque, ouvir discursos malucos em Londres, sair vivo do Mar Morto, perder um trem em Baden, mexer em relíquias do campo de concentração em Auschivitz, fazer um check up em Frankfurt, curtir as ladeiras e curvas de San Francisco, passear na cidade proibida em Jerusalém, estudar em Massachusets, ver os destroços da deposição de Allende em Santiago, virar a noite em Madri até a polícia nos mandar para o hotel, jogar em Las Vegas, atravessar o antigo muro de Berlim, aprender a gostar de Miami, aguentar o papo dos gondoleiros de Veneza, conversar uma noite inteira com uma estranha em Saint-Malo, tomar banho em Punta Del Este, repetir as casas de tango de Buenos Aires, passear de navio pelo Caribe, enternecer-me com o Mosteiro dos Jerônimos, andar de barco no Mar da China, discutir sobre Robert Frost em Barcelona, brincar no Tivoli Park em Copenhague e muita coisa mais.
Pode ser que alguém ache – e talvez tenha razão – que quis me mostrar. Quem escreve se mostra e se mostro onde andei de carro, trem, avião e navio aí a coisa fica mais à mostra. Paciência, faço parte de uma família de andarilhos. Começou com Pero Vaz de Caminha, meu “ancestral materno”.
Gosto de ver o mundo do meu jeito, ficar olhando os nativos de cada lugar. Nós somos pessoas de um mesmo planeta, mas como somos diferentes. Não é só questão de raça, religião ou do lugar onde moramos. É algo maior, misturando os costumes, a cultura e o jeito de cada um ser, ver e viver o mundo.
Recentemente, li um livro da jornalista Sônia Nolasco, “Moreno como vocês”, nele ela narra o choque cultural e social de brasileiros morando em Nova Iorque e suas identidades abaladas. É um livro profundo na análise dos comportamentos dos expatriados e lembrei dele porque, nesta última viagem feita, li no “The Brazilian Sun” um depoimento de uma jovem, após quatro anos nos Estados Unidos, resolver entregar os pontos e voltar em meio a desilusões.
Quem sabe se as minhas viagens vapt vupt não sejam para eu não perder o meu senso de lugar e me imaginar fazendo parte de um mundo não meu? O meu é aqui, onde estão as pessoas amadas, conheço até os buracos das ruas, sei quem são as criaturas boas e as maledicentes e me sinto parte dessa coisa informe chamada comunidade que, na verdade, poderia ser mais solidária.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/08/1999.

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