TESTEMUNHA, SEM QUERER

Acabara de chegar da Grécia. Era uma Quinta-feira fria em Mannheim, cidade vizinha a FrankFurt. A noite de 09 de novembro de 1989 corria normalmente. Gravávamos uma fita com jazz ( entre elas, Bye Bye Black Bird) e uma fantasia composta por um alemão sobre o Hino Nacional brasileiro e o vinho ajudava a espantar o frio. A TV estava ligada baixinho, como contraponto. De repente, o noticiário da TV começava a sair do seu natural e os repórteres davam informações desencontradas. Vali-me de meu cunhado alemão para entender. Ele me respondeu: não estou compreendendo nada, parece que o Muro de Berlim está caindo.
O povo começava a sair às ruas e não havia nenhuma autoridade falando, pois Helmut Kohl, estava ausente do país em visita oficial à Polônia( Seria de propósito?). O que se soube logo foi que as autorizações de saída de Berlim Oriental estavam sendo concedidas sem limitações e em prazos mínimos.
As pessoas passaram a tirar pedras do muro e o resto todo mundo já sabe. Começara a ruir o mais forte ícone da divisão forçada da Alemanha, feita pelos aliados e a União Soviética, um país que nunca gostou de ser tutelado.
Hoje, passados 10 anos, pode-se dizer que Mikhail Gorbatchov, então premiê da URSS, foi um dos grandes alavancadores desse processo de abertura, iniciando o fim de uma guerra fria beneficiadora de fabricantes de armamentos e políticos reacionários iludindo seus eleitores, de ambos os lados.
Eu estive em Berlim Oriental, antes da queda, passei pelo “Check Point Charlie” e senti como era rígido o controle de entrada. Viajava de trem. Primeiro, o trem parou. Depois vieram policiais com cães amestrados farejando tudo. Em seguida, lanças com espelhos na ponta, como os que os dentistas usam para olhar os nossos dentes de trás, foram passados por baixo dos vagões do trem. Após tudo isso, descemos, entregamos os passaportes, faziam algumas perguntas, nos fotografavam, mandavam comprar certa quantia em marcos orientais – que não podiam ser recomprados na volta – e aí, sim, éramos liberados para uma visita restrita. Isto é, não se podia ir aonde queríamos, mas aos pontos recomendados.
Isso foi no fim da década de 70 e eu não podia entender edificações divididas ao meio, um muro altíssimo, rolos de arame, casamatas, postes com iluminação feérica, postos de observação e um aparato de guerra que não combinava com a efervescência a 200 metros dali, onde em Berlim Ocidental a vida corria normalmente, com o seu ar cosmopolita.
Pulemos para 1989. A noite se fez tarde, os vinhos seus efeitos e fomos dormir. Ao amanhecer, a história tinha dado mais um passo e os jornais e as televisões mostravam os estragos no muro, famílias se reencontrando e o povo nas ruas. Houve excessos, de lado a lado, nas comemorações, e só depois de algum tempo é que a calma voltou a reinar.
Hoje, dez anos depois, tendo voltado algumas vezes à Alemanha, sinto que os 400 bilhões de dólares gastos na reconstrução da parte oriental surtiram efeito, mas há muitos descontentes, especialmente os que tiveram de pagar a conta. Mas isto é outra história.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/11/1999.