Estava eu cá pensando como os meninos de hoje são diferentes dos de antigamente. Tenho um amigo, filho de um amigo, de sete anos. Ele me chama de João e não tem a menor cerimônia em falar comigo. Até a última vez em que o vi ele tinha quatro pontos na testa, já havia visto o “Titanic”34 vezes, montara uma réplica do dito cujo sem grandes dificuldades e mexia com informática, especialmente jogos.
Por conta disso, lembrei da minha infância, quando qualquer pessoa mais idosa era senhor ou senhora e resolvi recolher fatos, alguns bobos, perdidos no tempo que aconteceram comigo. Muitos deles não fazem hoje o menor sentido, mas acreditem, aconteceram.
– Aos cinco anos me perdi. Fiquei olhando desconfiado para todos os lados. Um senhor perguntou meu nome, o nome dos meus pais e onde eu morava. Voltei para casa. Todos se conheciam.
– Tinha só nove anos e gostava de voar de teco-teco (avião monomotor) com meu pai. Ele colocava um caixão coberto de alumínio cheio de gelo dentro do avião. Descíamos nas praias desertas e comprávamos peixes. Voltava feliz e cheirando a peixe.
– Nessa mesma época aproveitei o carro do meu pai dando sopa e liguei a chave. Sem saber como, engatei a ré e foi fogo para parar. Não sabia como. Aprendi a dirigir ao contrário.
– Foi aos 10 anos. Não tinha idade para fazer o “admissão ao ginásio”. Um exame então obrigatório ao ingresso no curso secundário. Aumentaram minha idade. Até hoje sou, oficialmente, um ano mais velho. Quando fui casar deu problema, a certidão de nascimento era diferente do batistério.
– Por volta dos 11 anos, no carnaval, meu pai me deu um vidro de lança perfume. Saí em um caminhão cheio de gente e despejei todo o conteúdo do vidro em uma menina. Ela me olhava e eu esvaziava o vidro, sem trocarmos uma palavra. O vidro secou e eu mudo fiquei.
– Aos 12 anos comprei uma bola e fiz um time de futebol. Fiquei na reserva. Acabei com o time.
– Com treze anos já era encrenqueiro. Um professor era um pé no saco e a maioria da turma não gostava dele. Na hora do recreio, juntamos areia e fizemos um simulacro de seu corpo em cima da grande mesa da sala de aula. Quando ele chegou, esbravejou e todos rimos. Ele deixou a turma.
– Aos 13 anos apaixonei-me por uma moça mais velha. Ela foi a uma festa à noite e eu esperei que o dia amanhecesse para brigar.
– Tinha um parente bispo que, vez por outra, me convidava para viajar com ele. Um dia chegamos a um convento, onde serviram uma merenda reforçada. Ele me chamou ao canto e disse: Encha os bolsos com o que você puder. Bispo não pode, mas perdoa.
– Nessa época, 13 anos, tive um surto de fé fora do comum. Queria entrar no seminário para ser padre. Meu parente, bispo, pediu que um padre amigo conversasse comigo. Batemos um longo papo e ele sugeriu que eu passasse uns meses rezando para confirmar minha fé. Deu no que deu.
– Aos 14 anos, véspera do Dia das Mães, fiz um discurso infame no colégio. Ganhei o apelido de “João Mamãe”.
– Aos 16 anos fazia política estudantil e gostava dos congressos para escrever dedicatórias nas pastas de papelão das colegas. Recebia delas, em contrapartida, muitas frases feitas, a exemplo de: “o essencial é invisível aos olhos” ou “tu és eternamente responsável por aquele que cativas”. Antoine Saint-Exupery e “O Pequeno Príncipe” estavam na moda. Antes das misses.
Tudo isto foi já na segunda metade deste século que está por terminar e parece tão distante, como se o hoje caçoasse do passado.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/11/1999.

