Lá estávamos nós na fila, vendo o primogênito do “Seu Costa” e de “Dona Dolores” espalhar a sensibilidade, a mordacidade e a gentileza que se amalgam em sua personalidade.
Terno azul, camisa branca, gravata importada, cabelos aparados, óculos graves e aquele bigode latino que criou para espantar a timidez e lhe dar o ar da sisudez que não tem, embora cultive.
Não era uma noite de autógrafos, era uma festa de benquerença, de reencontros e de reminiscências entre o autor e muitos de seus personagens políticos, de amigos e do dia- a -dia de sua vida que se transformou em um triângulo afetivo: Sobral, Fortaleza e Brasília. Peguem um mapa do Brasil e vejam se não dá um triângulo, não um equilátero, mas um isósceles, pois um dos vértices desse triângulo parece ser o seu centro gravitacional.
Esse menino tímido que, desde cedo, bisbilhotava o viver dos outros com a argúcia do futuro contador de estórias, estava ali declarando, de público, ter atingido a sexagidade, se é que esta palavra existe ( caso contrário, fica a sugestão para o próximo Aurélio). E a declarava com a verve e o gostoso “non sense” com que mistura suas múltiplas vidas nas cidades que escolheu para viver e amar e a sua permanência triunfal em Paris, quando os filhos lhe passavam “quinau” em seu francês pouco Sartreano.
Soares Feitosa, esse cearense que mostrou a possibilidade de ser técnico, empresário e intelectual em uma só pessoa, nos dá um puxão com “as orelhas” que escreveu no “Como me tornei Sexagenário”. Claro, profundo e com a simplicidade que só os que sabem ler podem ter. Digo isto e provo. Cito o Feitosa em questão: “Poucos têm o dom. Lustosa da Costa tem. Sob prosa leve, um senso de humor à inglesa, a capacidade de rir em primeiro de si mesmo, e – as cartas, o epistolar… onde parece escrever para a eternidade. Pinçar, eis a essência do escrito lustoseano nesse mar de banalidades”.
Para não dizer que também não pincei nesse mar de palavras alguma coisa, mostrarei o lado “tímido sex” do autor, revelando, com a sua forma peculiar, cinco dos seus muitos encontros-desencontros amorosos. Vamos a eles? 01.“Também conheci uma moça gordinha, do interior, de pele macia como a carteira de plástico com que me presenteou. Foi um namoro que não se consumou apesar do mimo”. 02. “Anos depois, barba feita, coração por fazer, amei. E amando, gastei a sola dos sapatos, muitas vezes por dia, pela rua Joaquim Ribeiro, na esperança de avistá-la à janela”. 03. “Fui acometido de esperanças violentas e desesperos mortais. Até que veio o não”. 04. “A essa época, namorei Maria Helena, que era jovem e virgem como acontecia àquele tempo”. 05. “O sexo não era risonho nem franco. A moçada de hoje, criada com a tranqüilidade da pílula e o conforto dos motéis, precisa saber que, naquele tempo, não havia nem uma coisa nem outra”.
Muito mais teria. Vou ficando por aqui, pois o espaço é curto – e o Bilas teima em editá-lo com esse tipo de letra que faz a alegria dos oculistas – citando o próprio Lustosa: “escrever, para mim, é compulsão. Escrever me libertou da timidez. Escrever me pôs em contato com o mundo o que nem sempre é fácil, oralmente”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/11/1999.

