Ontem, 11 de setembro. Há 13 anos aconteceram os ataques aos EEUU. À época, escrevi o livro “Sobre a Gênese e o Caos”. Na parte do Caos, criei 11 contos breves. Agora, neste 2014, há novas ameaças de toda natureza no cadinho da área que abriga países como Iraque, Irã, Afeganistão, Síria e outros. Isto sem falar na questão Russa e Ucrânia. Tudo conspira contra a paz. A União Europeia e os EEUU se reúnem. Daí, resolvi mostrar, de forma aleatória, dois(retirar um dos 3) dos contos escritos. Vejam:
A FESTA DO SACRIFÍCIO -Tárik nasceu em Jalalabad no Afeganistão, quase fronteira com o Paquistão. Criou-se dentro da fé islâmica e isolado do mundo. Seu pai morrera na guerra contra a União Soviética e a mãe resignara-se em ficar cozinhando e orando em casa. Aos 14 anos teve uma crise forte de vesícula e foi removido para Cabul, capital do seu país. Cicatrizado, viu-se em meio a multidões que andavam em grupos pelas ruas destroçadas. Tomara consciência de que eram vencedores da guerra contra os soviéticos, mas só via miséria. Era o mês do Ramadã, a época sagrada em que se comemorava a primeira revelação de Allah ao mensageiro de Deus, Muhammad. Naquele dia, seria a terceira vez que orava e pedira iluminação. O que fazer de sua vida vazia? Voltar para Jalalabad? Ficar em Cabul?
Orou com esperança e teve a sensação de que uma fé mais forte tomava conta de seu corpo esguio de adolescente. Olhou a multidão que se formara defronte à mesquita e para lá se dirigiu. Um homem alto, bem mais alto que os demais, de feições graves, arma a tiracolo, falava manso para pessoas extasiadas. Dizia que Allah, o único Deus, pedia a todos os muçulmanos que se unissem para acabar com a fome e a injustiça de Satã. Terminada a oração o homem alto foi seguido por dezenas de pessoas que tomaram um caminhão. Sem saber como e nem porque correu a tempo de subir na carroceria cheia de pessoas armadas, mas tranqüilas. O caminhão deixou Cabul e dirigiu-se às montanhas. Em pouco tempo, chegaram a um acampamento que era encoberto por grandes pedras e árvores ressequidas. Todos desceram e foi aí que notaram sua presença. Era um estranho e um estranho muito jovem em meio àqueles homens obstinados. Foi detido e levado à presença do homem alto. Este ouviu a sua história, deu-lhe um Alcorão surrado de presente e perguntou se seria, a partir daquele dia, submisso a Deus. Tárik respondeu que sim, a sua vida teria um sentido. Tudo era novo para ele.
O homem alto deu-lhe muitos livros para ler e cobrava. Fazia perguntas e testava. Tárik foi descobrindo, fascinado, a glória da informação e do conhecimento. Anos mais tarde, o homem alto lhe disse: é preciso que você leve a força de Allah para lugares profanos. Vá, misture-se a eles, mas nunca perca a sua fé. Irmãos o acolherão. Aprenda a língua dos ímpios e tente viver como um deles. De tempos em tempos, nós manteremos contato. Agora, Tárik estava ali naquele aeroporto, de barba raspada, calça, camiseta e uma prosaica mochila aonde levava o velho Alcorão e quatro agulhas de tricô enfiadas num novelo de linha. Aprendera a manuseá-las de uma forma diferente. Com um ar descuidado repousou a mochila na máquina de raio-x e a recebeu com indiferença no outro lado da esteira. Não olhava para os lados, mas não estava só. Tinham todos os mesmos pares de tênis, novos, pretos com cadarços vermelhos. Esta era a senha. O avião taxiava e ele sabia que, em breve, participaria da “Eid al adha”, a festa do sacrifício, e receberia o perdão divino. Era preciso que fizesse. O homem alto assim o determinara.
O GRANDE DIA – Nascera negro, pobre e paralítico. É bem verdade que não era mais paralítico, mas ainda tinha sequelas de uma poliomielite. Sua mãe, por mera ignorância, não o imunizara com a vacina salvadora. Também, desculpava-se ele, sua mãe dedicou o resto da vida a protegê-lo, a prepará-lo para o mundo que ela não entendia e achava cruel. Fora abandonada pelo marido, um plantador de amendoim dos arredores de Atlanta, na Geórgia, que a trocara por uma loura oxigenada do Texas e se mandara para Sausalito. Perdera seu homem, mas não a vida. Seu trabalho, noite e dia, como atendente de um hospital público, deu-lhe sustento, uma pequena casa na região sul da cidade, onde os negros viviam e procriavam muito.
George foi cedo para a escola. Teve a assistência de um pastor luterano que providenciou a prótese que o faria se locomover sem a tosca muleta que o acompanhara por anos. Aplicado, responsável e temente a Deus, dedicou-se a estudar com afinco, varando madrugadas e fazendo a si mesmo a promessa de retribuir, um dia, a dedicação da mãe. Formara-se em economia e, por conta das suas notas A, entrara direto no mestrado de Yale com uma salvadora bolsa de estudos. Continuou a colecionar As e não conteve o choro quando sua mãe, já alquebrada mas vistosa em seu vestido escarlate, entregara o seu prêmio de melhor da turma. Amava seu país, acreditava na ascensão social e já não doía tanto a lembrança dos avós escravos que não conhecera. Ainda não encontrara a mulher de sua vida. Tinha uma boa amiga, descendente de judeus poloneses com quem ouvia músicas de Cole Porter e comia tacos. Nada de sério e na sua ética luterana se culpava das poucas vezes em que, solitário, chegava ao prazer. Um dia, casaria, teria filhos, moraria bem, mas nunca no sul, pois conseguira polir o sotaque arrastado que herdara de sua mãe.
Acreditava nas ideias da democracia, votara em George W. Bush e estava pronto para o milagre americano. Chegara a Nova Iorque há uma semana para uma entrevista de trabalho. Um caçador de talentos o convocara por seu currículo. Comprara uma roupa nova na Saks e se viu no espelho. Óculos de aros finos, cabelos cortados rente que disfarçavam a carapinha, camisa branca, gravata listrada e o novo terno azul com riscas de giz que lhe dava um ar distinto.
Subiu receoso ao elevadíssimo andar daquele prédio tão famoso. Confiava em Deus, no seu talento e na América. Seu entrevistador era só um pouco mais velho que ele e o recebeu com atenção, mas sem calor. Notou que usava um reluzente brilhante solitário no dedo mínimo da mão esquerda. Um dia compraria um mais bonito ainda. Falaram sobre sua vida acadêmica e não disfarçou a alegria quando perguntado sobre George Soros e seu modo de ver o mundo. Saiu contratado. Começaria a trabalhar no dia 11 de setembro, data do aniversário de sua mãe, que sorte.
Hoje era o grande dia. Vestiu a mesma roupa e deixou, bem cedo, o apartamento que alugara no Bronx. Misturou-se a tantas outras pessoas no metrô que liam jornais ou ouviam músicas em seus fones de ouvido. Era um deles, afinal. Chegara aonde se propusera. Telefonaria para a mãe mais tarde. Às 8.40 horas identificou-se na portaria com seu crachá eletrônico e alegrou-se de estar naquele elevador tão grande com gente bem vestida, olhares confiantes e pastas à mão. Descera no andar certo, sentiu a energia do sol radiante, divisou uma barcaça que singrava pachorrenta o Rio Hudson e, atônito, num lampejo, viu o avião.
OS NÚMEROS – Ao ser libertado do campo de concentração de Dachau fez três juras a si mesmo. A primeira: nunca mais falaria uma só palavra de alemão. A segunda: sairia o mais rapidamente da Alemanha. A terceira: nunca esqueceria, ao ler os números marcados em seu braço, as atrocidades sofridas.
Esquálido, esgueirou-se por entre os soldados aliados e conseguiu esconder-se em um caminhão carregado de mantimentos. Viu-se, após algum tempo, no porto de Hamburgo. Esperou a noite escura se fazer e, apurando a vista, divisou o grande navio americano ancorado. Cauteloso, mas decidido, aguardou o sentinela abraçar a loura junto ao poste. Subiu com o resto das forças possuídas e descansou sob o bote emborcado no tombadilho.
Agora, era 2001. Conseguira a cidadania americana. Tinha filhos, netos e uma bisneta mestiça que puxara à graça de sua mulher, uma bonita negra do Harlem com quem aprendera os segredos da vida e a falar inglês. Não fizera fortuna, mas seu emprego de mecânico dera o sustento a todos e ainda tinha uma boa reserva no banco.
Hoje, cansado, não deixava de olhar por trás de suas grossas lentes, os números tatuados em seu braço: 9112001. Sabia-os de cor, sonhara com eles tantas vezes e ainda lembrava o dia em que havia sido marcado, como se fora gado.
De repente, um pressentimento estranho veio à sua mente. Aqueles números pareciam estar formando uma data próxima: 11 de setembro de 2001. O que isto significaria? Não poderia ser coisa boa, pois aquelas marcas nunca lhe deram alegria e o obrigaram sempre a usar camisas de mangas longas. No seu quarto de viúvo solitário, pensou à exaustão. Alguma coisa ruim iria acontecer no dia 11 de setembro de 2001, concluiu. Resolveu tudo só: marcou uma reunião de família para a manhã do dia 11 de setembro, todos deveriam comparecer, ainda sabia a força que tinha. Houve resmungos, pois seria uma terça-feira, dia normal de trabalho, mas concordaram com o capricho estranho do velho e querido chefe da família. O que seria?
Chegaram todos. Até o neto prodígio que trabalhava arduamente naquela corretora judia no prédio mais famoso da cidade. Outro neto, bombeiro municipal, chegou fardado trazendo nos braços a bisneta querida. Eram 9.00 horas da manhã e a farta mesa estava disposta no jardim do quintal onde tantos churrascos aconteceram. Parecia a festa do Dia de Ação de Graças, mas não era.
O velho chefe da família olhou para todos com os olhos cheios de lágrimas. Estava alegre por tê-los a seu lado, mas triste, por não saber explicar a razão daquele encontro na velha casa do Harlem. Ria e chorava. Ria e chorava, enquanto lembrava o que intuiu ser uma data fatídica em seu braço.
João Soares Neto
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/09/2014

