Um desmaio. A perda da direção. Carro desgovernado. Uma árvore, o choque. Hospital. O telefonema recebido ao longe. E eu vim voando do Rio, chorando em silêncio. Aqui, soube da perda no primeiro contato com o médico. Aguentei firme, calado. Dias depois, a délivrance. Fiz o caminho entre aquelas árvores frondosas com o filho morto aos braços levado. A dor nublava a manhã de sol que me fazia desvalido.
O tempo, este curativo da vida, foi passando. E como um raio de luz, chegou saudável, querida, a primeira das filhas. Recebida com a alegria de pais novatos, mas já sofridos. E era o caminho do fulgor de um 24 de setembro, a data de hoje, a que consagrei para sempre, ao vestir, simbolicamente, o manto aconchegante da paternidade querida. Agora, ali no berçário da maternidade, repousava a bela menina, ralos cabelos aloirados, que passara por todos os exames preliminares de sanidade. E aí voltou a emoção.
A dor atravessada se transmudava em alegria incontida. Precisava contá-la a meus pais, irmãos, parentes e amigos. E fui a uma gráfica. Escrevi o texto anunciando a alegria do seu nascimento. A afeição derramada em palavras na comunicação escrita com letras cursivas em cartão de linho vincado. E assim foi feito, querida filha. Dias depois, chegava à nossa casa, plena de cuidados, posta em berço em madeira de lei, detalhes artesanais torneando suas grades, como a dizer da alegria de bem recebê-la com o protetor cortinado de renda e bicos. E quis Deus, que essa menina, com nome belo e forte, anos após, comemorasse um aniversário.
Por e com amor, havíamos, eu e sua mãe, construído uma casa de boneca. Fizemo-la em alvenaria, coberta com telhas coloniais, janelas, portas, piso e água corrente na micro-pia da cozinha. E, já pronta para a festa aniversária, sua mãe, grávida de oito meses, abaixou-se para olhar o interior daquela belezoca de brinquedo. E aí se deu o rompimento da bolsa placentária envolvendo uma outra irmã, prestes a nascer.
E essa irmã e filha, de tão fraterna, possa ter dado um solavanco maior naquele mundo aquoso em que navegava para vir participar dessa festa neste planeta azul. E assim se fez. Você chegou de improviso, no mesmo 24 de setembro. E enriqueceu com a sua vinda, graça e brejeirice antecipada a brincadeira naquela casinha de bonecas feita para vocês, bonecas vivas. A vocês, neste seu dia deste novo século, com realidades, dores, amores e sonhos, renovo meu amor pronto, decidido, encabulado, talvez melhor escrito que falado, mas não menor que o maior que um pai possa dedicar a filhas queridas. Parabéns.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24/09/2010.

