A BIENAL ARTE CABEÇA

Visitei, com olhos de leigo, uma parte da Bienal de Artes das Américas. A própria bienal se diz “ponta-cabeça”. É uma proposta de vanguarda, experimentação, rupturas, instalações e objetos. Certamente sem rigor, conceito, conteúdo e formas consagradas. Ponta-cabeça pode dizer muita coisa ou não expressar quase nada.
Sabemos que a arte pode ser um choque, uma distorção da realidade, um desfocar sobre a visão dita normal. Sabemos também que toda arte, como já pensava Picasso, é uma espécie de mentira por meio da qual se procura perceber a verdade. O artista, no caso em espécie, é, tal os poetas, um fingidor, e dá aos seus desvarios uma expressão viva dos seus sentimentos, engajamento social ou político e, quiçá, de sua alienação.
A “ponta-cabeça” parece não ter feito a maioria das cabeças das pessoas que estavam por lá. Tive o cuidado de perguntar e o desapontamento era maior que o regozijo. Coisa de leigo, quem sabe. Embora não possa dizer que baldes plásticos agrupados não sejam uma expressão artística. Tampouco tenho autoridade para discordar que graxa espalhada em um encontro de paredes seja, em sua negritude, uma manifestação fértil a perturbar a retina de quem vê. Arte é perturbação. Nesse caso, a graxa está bem aplicada. Pregos em uma parede branca com iluminação artificial podem ter efeitos inquietantes. E arte é também inquietação. Jornais espalhados e um caminho a percorrer entre eles pode não ter uma finalidade precípua. E arte não tem finalidade. Tem simbologia, alegoria e reflexos. E quem sou eu para dizer que não havia reflexos e simbologia em meio ao caminho que passei entre vales e montanhas de páginas políticas, econômicas, sociais, esportivas etc.
Vi águas da Tailândia em um vídeo que poderiam ser de um rio qualquer, mas eram da Ásia e revoltas. E águas revoltas, de qualquer continente, serão até manifestação de arte. Tudo o que mexe com a nossa inércia mental, provoca pensar, prazer, desconforto, sentir, e poderá ser arte. Talvez tenha sido essa a intenção do artista filmador.
E, de sala em sala, vi ainda retratos em que as íris dos olhos eram máscaras de homens engravatados, como a dizer algo que o artista percebeu. Artista vê com o terceiro olho, como os yoguis. Quase a sair, outro vídeo. Este, de pessoas tentando fazer o jogo da velha em meio a um cruzamento de um trânsito louco, em que semáforos não oportunizam o pintar dos jovens ajudantes do câmera inquieto que dirige a cena sobre o asfalto pintado em xis. No final, uma grande bola, com pequenas reentrâncias, quase monocromáticas, assimétricas, como a nos dizer da imperfeição de todos nós, especialmente os que, como eu, não entendem de arte.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/02/2003.

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