Não dormira bem, apesar do velho Valium, seu companheiro há anos. Acordara cedo e sentira o absorvente higiênico embebido. Foi ao banheiro, uma ducha quente demorada, penteou os fartos cabelos ruivos, cuidou da maquiagem como a marca Esther Laudée oferecia e mirou seu corpo no grande espelho embaçado pelo vapor. Passou a manga felpuda do roupão Gucci e gostou do refletido. Era uma moça bonita.
Largara tudo em Chicago e recomeçara a vida em Nova Iorque, a cidade que lhe dera aquele pequeno, mas valioso loft, em Tribeca. Solitária. Escolhia os seus homens. Transavam, dava um beijo de despedidas, tomava o seu Vallium e deitava solitária na larga cama entre lençóis de seda e fofos travesseiros, abraçando-os em posição fetal.
Abriu o armário e encontrou apenas um absorvente. Passaria na drugstore no subsolo do seu trabalho, na Torre Norte, e compraria uma caixa. Ligou a cafeteira, colocou duas fatias de pão integral na torradeira e tomou o suco de tomate junto com o cotidiano Prozac. Sentou quieta e bebeu cada gole do café encorpado. Mordiscou, distraidamente, a torrada sem geleia para não engordar, escovou os alvos dentes e pincelou os lábios com o novo lançamento de batom.
Escolheu um vestido negro de botões cinza-escuro como uma túnica chinesa. Era adequado para aquele setembro ainda quente. Mudou os pertences para a bolsa Louis Vuitton combinando com os confortáveis e altos sapatos a fazer do seu trajeto diário uma passarela imaginária.
Havia tempo ainda. Desceu ao subsolo, escolheu um pequeno pacote do absorvente higiênico, colocou-o na cestinha e viu na gôndola próxima um vidro de Chanel nº 5. Era a velha tentação. Olhou para os lados e não teve dúvida em colocá-lo na bolsa. O calafrio criava o clima. Era um misto de medo, desafio e prazer. Já discutira isso dezenas de vezes com o seu analista. O desejo furtivo de roubar nada tinha a ver com necessidade, era um impulso incontrolável. Não importava o nome de cleptomania. Nunca fora apanhada. Cuidadosa, olhava sempre para os lados e fugia das câmeras.
Dirigiu-se a um dos caixas, apresentou o absorvente e o cartão de crédito. Não vira o segurança a seguir tudo de longe. Polidamente, mas incisivo, solicitou acompanhá-lo à cabine especial. Mesa branca, cortina de veludo negro e luz forte. O segurança pediu para colocar todos os pertences de sua bolsa sobre a mesa.
Ela relutou, mas parecia sentir um estranho prazer em ser apanhada. Em meio a seus pertences, lá estava o vidro de Chanel nº 5, ainda com a tarjeta magnética. O segurança tocou a campainha, ao tempo em que ecoavam imensos e prolongados estrondos. Uma viga de aço o atingiu mortalmente, grandes blocos de pedra caíram em meio à poeira, formando um escudo protetor para ela, enquanto a fragrância do Chanel nº 5 evolava pelo chão, misturando-se ao sangue da fronte do segurança.
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Explicação: o conto acima integra o meu livro “Sobre a Gênese e o Caos”. O reproduzo pela passagem dos 15 anos dos atentados em 11 de setembro de 2001.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16/09/2016.

