Nós, os animais que falam e pensam, vivemos em casas e nas ruas. Óbvio. O não óbvio é a forma como experimentamos hoje a noção de casa e rua. A casa era ambiente prazeroso, lugar de enlevo e reunião da família. Passou a ser casamata, fortificação a nos guardar do perigo. Elas precisam de fechaduras duplas ou triplas, grades, alarme, cercas elétricas interfone/vídeo.
Não pensem ser isso privilégio da classe média para cima. Não o é. Em qualquer cidade brasileira, pequena, média ou grande, há um sentimento de medo geral e nos trancamos. Pobres, medianos e ricos. Liga-se a TV. Jorra a anunciação dos roubos, assassinatos, estupros e assaltos praticados no dia anterior e até no mesmo dia.
Essa busca de audiênciacruenta domina os horários do começo das noites na maioria das emissoras de televisão. As de rádio têm a obrigação de chegar rápido no local do crime ou da perversão. Há uma lógica nefanda na concepção da grade de programação aflitiva das emissoras de rádio e TV. É uma síndrome deletéria a unir parte de policiais à um préstito da imprensa na divulgação do infortúnio ou de fatos escabrosos. Se estiver errado, por favor, aceito contestações. Escrevam para o jornal: relatem meus equívocos e falsas interpretações.
Ao colocarmos o pé na rua, somos apoderados de um receio a nos tornar inquietos e até descorteses com o outro. Desconfiamos do diferente. Se ele não fizer parte do estereótipo intuído como nosso padrão de referência social, é ameaça. Ainda estamos na rua. O que dizer dos ônibus, dos prédios, dos carros e do trânsito?
João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 26/01/2014.

