Houve um tempo, e não faz muito janeiro, em que as pessoas conheciam os donos das empresas, mesmo as grandes, de sua cidade. Sabiam suas histórias ou o que imaginavam ser, através de boatos e fofocas, as suas estórias. Depois, as ditas grandes empresas da cidade foram sendo incorporadas ou incorporando empresas regionais. Em seguida, as empresas regionais foram tentadas a ser maiores e viraram nacionais. Um dia, bem recente, as multinacionais ou transnacionais, como chamam agora, resolveram, por conta da paradeira do Primeiro Mundo sair comprando por países afora o que achavam apetitoso ou estava dentro do seu nicho – esta é a palavra que usam – de mercado.
Todos sabem que Adam Smith, ao escrever “A Riqueza das Nações”, falou na tal da “mão invisível do mercado”. Ninguém vê a tal mão, mas ela não se mete em cumbuca. Só escolhe o que é bom e vai comprando, comprando, de forma invisível. Pois não é que, o supermercado que era do “seu Antônio”, já passara por outras mãos, é agora da maior multinacional do mundo de sua área. Silenciosos vieram os analistas, com os seus tradutores e os seus “notebooks”, fizeram as contas, disseram que pagaram e já estão mudando o nome. Tudo em nome do progresso, da economia de escala, da quebra de barreiras e da abertura internacional, pois este Brasil precisa muito de dinheiro de estrangeiro para pagar os juros que deve a estrangeiros. E como deve.
Do mesmo jeito, e no mesmo tom, há bem pouco tempo as cervejarias número 1 e número 2 se fundiram. Sem mudar os nomes das marcas, criaram uma grande empresa que se meteu a multinacional, comprando outras menores no Brasil e a número não sei o que da Argentina. De repente, vieram, uns silentes belgas e vapt: compraram o controle da 1, da 2 e de tudo o mais. Deram declaração nas tvs, compraram páginas e páginas de jornais e revistas para explicar um “acordo de acionistas” em que os brasileiros ainda continuarão co-gerindo, apesar de minoritários. Pois sim. O que se explica demais nem sempre é o mais certo.
Estas duas estórias, aparentemente engraçadas, são o retrato do que se vive hoje aqui e ali. Enquanto os josés, antônios e franciscos, que ainda são pequenos ou médios empresários continuam lutando para sobreviver, arranjar compradores, descontar títulos em bancos, receber o que lhes devem, acertar as contas com um fisco impiedoso e draconiano, as grandes empresas e as ditas transnacionais acercam-se de consultores fiscais, planejamento financeiro, não pagam impostos, até que se transformem, quem sabe, em um novo grande engodo ou escândalo, como aconteceu meses atrás no país onde se originou a pizza e veio reverberar aqui onde muita gente gosta de pizza.
João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/03/2004.

