José Gutiérrez nasceu em um bairro pobre da Guatemala. Viu que seria pobre eternamente e descobriu-se sonhando com um futuro mais promissor. Não seria como seus pais, já velhos e sem perspectivas com menos de 50 anos. O mundo estava aí para ser conquistado. Trabalhou, juntou tudo o que tinha e fugiu para os Estados Unidos. Foi dar com os costados na Califórnia, lugar lindo, rico, em que tudo parecia funcionar. Viajava de trens, ônibus, caronas, mesmo que dormisse em prédios abandonados e vivesse se escondendo da “la migra”, como é chamada a polícia migratória.
Acreditava haver encontrado um sentido para a sua vida e uma nova casa. Não voltaria para a pobreza guatemalteca. Sonhava em ser um novo Antonio Banderas ou, quem sabe, um dono de uma daquelas lanchonetes em que a comida era cheirosa, serviam água com gelo e nos banheiros limpos fazia, escondido, os seus asseios.
Um dia, sem que esperasse, foi preso pela “la migra”. Desolado, soube por outros imigrantes ilegais que a melhor maneira de se safar era declarar-se refugiado. Assim o fez. Saiu das grades e viu que a única saída para ser igual aos outros que viviam na América era ter um “status”. Se não tinha dinheiro, não falava bem o inglês, mas era forte e jovem, a solução seria ingressar nas forças armadas, onde já estavam 130 mil latinos como ele, e conseguir o “green card”.
Era vidrado em filmes de guerra em que os “marines” sempre venciam as batalhas e tinham as mulheres que queriam. Seria um deles e mandaria fotos coloridas para seus pais e amigos da Guatemala. Escolheu o Corpo de Fuzileiros Navais. Agora era mais uma praça, o “Joe”.
Veio a oportunidade sonhada: a Guerra do Iraque. Não sabia bem qual a razão dela, mas isso pouco importava. Teria viagens, bom soldo, promoções e gostaria de conhecer de perto aquelas mulheres que se cobriam todas. Tiraria os seus panos e mostraria porque se achava um Antonio Banderas.
Viajou em um grande avião com farda camuflada e viu, ao chegar, que a coisa não era bem o que pensava. O Iraque lembrava a pobreza de sua Guatemala e o calor fazia ferver o seu sangue latino.Logo foi destacado para uma missão de reconhecimento em uma cidade que não sabia pronunciar o nome. Mascando chicletes, com toda uma parafernália de munições, equipamentos e armas, pensava estar protagonizando um daqueles filmes em que os “marines” sempre vencem. Seguia o que seu sargento mandava fazer e gostava de colocar os óculos em que via no escuro, como se fosse dia. Era, enfim um americano. O “Joe”. Em um instante, José Gutiérrez estava morto. Uma bala perdida ou dirigida, nunca se saberá, o encontrou. Era o segundo americano morto em operações no Iraque. Nem aí teve a glória de ser o primeiro. Seu corpo foi resgatado e colocado em um caixão de zinco enrolado em uma bandeira americana. Voltou no porão de um avião de guerra. A América concedeu a José Gutiérrez a cidadania post mortem, não precisaria mais do “green card”.
Escrito por João Soares Neto, a partir de notícia verídica do jornal “El Clarín”, de Buenos Aires, edição de 29.03.2003
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 13/04/2003.

