A DITADURA DO CORPO

O surgimento, neste século, de profissões novas como, por exemplo, educação física, fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição e a atenção que a medicina, a biotecnologia e a engenharia genética deram ao ser humano, fizeram aumentar os cuidados com o corpo, sem falar nas plásticas, pois isto é outra história.
Honoré de Balzac falava, no século XIX, das “mulheres de 30” como se estivessem no ponto final de uma vida ativa. Hoje, as mulheres – e os homens, por extensão – de 30, 40 e 50 anos estão se vendo e se sentindo bem mais novas que suas mães, na mesma idade. Os recursos da coméstica, as aulas de ginástica, musculação, natação, corrida, alongamento, yoga, dança e as lutas estão deixando um rastro de saúde, especialmente quando associadas a uma alimentação saudável, e a ingestão de vitaminas e antioxidantes. Hoje muita gente fala com desenvoltura sobre ácidos graxos, fibras, sal, gordura, proteína, carboidrato e colesterol.
Por outro lado, o aumento da longevidade, as aposentadorias precoces e o medo de envelhecer têm encorajado pessoas de mais idade a saírem de suas casas em demanda de parques, praças, avenidas, praias, piscinas e academias. Assim, jovens, adultos, maduros e velhos misturam-se em uma sinfonia em que todos entoam uma mesma trilha melódica: mexer com o corpo para viver mais e melhor. Acordar cedo e malhar deixou de ser um modismo e transformou-se em prática saudável para os que precisam, acreditam e desejam continuar em forma, obedecidas as razões do corpo.
Ao mesmo tempo em que psiquiatras, psicólogos e terapeutas cuidam das mentes das pessoas, há um quase exagero na publicidade, na medicina, na nutrição e nas carreiras esportivas com a obtenção de um melhor físico. É a ditadura do corpo esbelto, mesmo que a mente não esteja totalmente sã. Vamos a um exemplo: recentemente, no estado americano do Novo México, os pais perderam a guarda de uma filha de três anos pelo simples fato dela estar pesando 55 quilos. Em outras palavras, é o Estado dizendo que compete à família a responsabilidade de cuidar dos corpos de seus integrantes.
A Olimpíada em curso na Austrália está sendo pródiga em quebras de recordes, pois os atletas vivem cuidando,por anos seguidos, de seus corpos de modo a transformá-los em feixes de músculos capazes de obedecer a impulsos instantâneos. Uma fração de segundo pode ser fatal na obtenção de uma medalha. Poder-se-ia dizer que esta olimpíada associa, de forma absolutamente integrada, a medicina e a nutrição às técnicas esportivas, não dando oportunidade a improvisações, mesmo que o talento e o arrojo ainda sejam as maiores características dos vencedores.
Esta ditadura do corpo parece ter uma razão de ser. Os geriatras e gerontologistas têm afirmado que as pessoas que conseguirem chegar saudáveis ao ano 2010 terão, ainda, muitos e muitos anos de vida. É chegar para ver.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/09/2000.

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