A ERA DO NENO – Jornal O Estado

Tem gente que pensa agradar quando escreve empolado, usa metáforas pessoais e faz do seu mundo o mundo alheio. Tem gente que é previsível,
risível e pouco aprazível de ler. Neno é o contrário de tudo isso. Escreve como fala, diz o que pensa na hora e não pondera entre o fato jornalístico e a conveniência. Sua irreverência é desmedida e caminha, lado a lado, com o seu quixotismo onde muitos são os sanchos, suburbanos ou não, que lhes indicam motes para destruir os moinhos de vento da impunidade, do descalabro administrativo, da falsa virtude de arautos do nada, da jactância de políticos que usam os repórteres de aeroporto como porta-vozes de suas não-falas em plenário federal. Neno é aquele que fala pelos cidadãos do Alto do Bode, é o eco da torcida indignada do Ceará, o espadachim que mexe suas mãos sobre o computador e registra, com sarcasmo e humor, as desditas de uma cidade sitiada pela marginalidade e pelo descaso de políticos encamisados com as gomas das benesses recebidas. Neno é indignado por todos os que não têm voz e precisam de um alento para circular, após o trabalho, entre os terminais de ônibus e tomar o último trago antes de chegar, exaurido, em casa. José Mairton Quezado Cavalcante, dito Neno Cavalcante, completou 30 anos de jornalismo crítico e comemorou a data cercado de amigos e admiradores de todos os naipes e o fez de forma singular e airosa, mostrando-se em livro que recebeu, ao vivo, vivas louvações decassílabas de Carlos Augusto Viana, seu stand by, e escritos carinhosos de Airton Monte, Ronaldo Salgado e Henrique Silvestre. Como se tudo isso não bastasse, na mesma noite, tira de sua cartola, o mágico violão de Manasses e banda e, após horas, a noite se queda na espontânea erupção de Raimundo Wagner em forma amisto-xistosa em violão cedido por Peninha. Finda a noite, voltemos ao livro. Ele deveria ter o título “A Era do Neno”, por configurar um tempo de vida fecunda, mas ficou apenas Era… Nas suas quase duzentas páginas, Neno desnuda-se e se declara amante apaixonado da mulher, pai vidrado nas filhas, amigo de seus amigos e defensor perpétuo de Fortaleza. Vale a pena ler as estórias breves que compõem a quase-história da cidade nestes 30 anos e formam a estrutura social do seu discurso jornalístico coerente, sutil, apaixonado e engajado.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/12/2008.

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