A ESTÉTICA DA POBREZA

Com todo respeito aos partidos de esquerda do Brasil, mas, um rapaz rico e inteligente, Walter Salles, pode ter denunciado igualmente, com tanta veemência, a crua pobreza e a violência brasileiras a milhares de pessoas no exterior. Ele fez tal qual ou melhor que sindicalistas, vereadores, deputados e senadores.
A intenção de Walter Salles talvez não fosse essa. Utilizaria a “estética da pobreza” para transformá-la em um filme realista – ou um drama, como se diz nos Estados Unidos – vencedor e candidato a mais prêmios, inclusive ao Oscar 99, em que uma heroína (Fernanda Montenegro) sem caráter (uma macunaíma de saias?) vai, pouco a pouco, procurando uma identidade perdida nos desvãos da vida. Certamente, o desempenho impecável de Vinícius de Oliveira (Josué) faz crescer a atuação de Dora-Fernanda.
Não creio que governantes fiquem alegres com o sucesso de filmes como “Central do Brasil”. O filme é tudo o que se nega nas propagandas oficiais. É claro que se pode dizer que todo filme é uma alegoria.
“Central do Brasil” pode ser visto como um libelo e uma prova visível e risível da decadência do Rio de Janeiro com seus superlotados trens de terceira categoria e da violência urbana (os grupos para-militares que executam pessoas a troco de nada), do desemprego e subemprego, das aposentadorias irrisórias que precisam de complementação (Dora é uma professora aposentada que ganha uns trocados escrevendo cartas para terceiros), do analfabetismo (“a senhora escreve para mim?”), das famílias desgarradas país afora pela fome, do trânsito louco (o acidente que mata a mãe de Josué) e do interior do nordeste com sua pobreza resignada, alimentada pela ignorância, crendices ou uma religiosidade ultrapassada e canhestra.
“Central do Brasil”, antes de ser um filme candidato a dois Oscars, é também uma sequência de diálogos fortes e contundentes, uma “aquarela do Brasil” que se arvora em ser a 8ª economia do mundo apresentando indicadores de qualidade de vida típicos de um país africano com uma apartação social cruel que muitos desejam ver debaixo do tapete.
O tapete é curto e nos coloca, com a velocidade de uma ágil câmera bem posicionada, frente a frente com o que gostaríamos de fazer de conta que não existe. Existe. Está em toda as partes deste imenso Brasil, tão rico e, paradoxalmente, tão miserável. Não precisa procurar. Basta sair às ruas de qualquer cidade.
A música de Jacques Morelenbaun é uma espécie de açoite aos nossos ouvidos moucos. Os vilarejos, os grandes vales e descampados da paisagem nordestina são uma constatação da inexistência de qualquer tipo de política fundiária que priorize o homem e o transforme em cidadão.
Não sei se “Central do Brasil” ou Fernanda Montenegro ganharão um
ou dois Oscars. Afinal, “a vida é bela”, há “crianças no paraíso”, todos gostam do “o avô” e “tango” nunca saiu da moda. Como diria Shakespeare, apaixonado ou não por “Elisabeth”, “há muito mais coisas entre o céu e a terra…” Torcer ou não, nada influirá nos “lobbies” e na cabeça dos 5.500 votantes da Academia de Hollywood que podem ter outros padrões culturais e estéticos como referência.
O que todos os que dirigiram, produziram e atuaram em “Central do Brasil” deveriam ganhar, independente da estatueta famosa que é o maior aval para o sucesso financeiro de um filme, diretores e atores, seriam troféus nordestinos feitos à base de mandacaru que serviriam, pelo menos, para espicaçar as consciências dos que tudo prometem e pouco fazem.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/03/1999.

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