A FOME, HOJE – Diário do Nordeste

Ao ler este escrito você já terá feito hoje, pelo menos, uma refeição. Poderá ter ingerido mais calorias que o recomendado. Em todo o mundo cerca de um bilhão de pessoas não terão o que comer. E eu com isso? Poderá perguntar. A história da fome no mundo é antiga, basta citar que, no século XVII, um terço da população russa morreu desnutrida. O continente africano é hoje o epicentro desse desastre humano. Ocorre na África pela exploração dos países europeus durante o período colonial e a não educação dos nativos para que crescessem intelectualmente e lutassem pela independência. Mesmo assim, o colonialismo acabou. Os poucos letrados que assumiram os poderes foram cooptados pela corrupção que hoje atinge construções, recursos naturais, como petróleo, metais nobres e pedras preciosas. Enquanto isso, o mundo fala apenas da oscilação dos mercados financeiros, popularidade do Obama, ataques fanáticos à Noruega e nenhum destaque à fome que se agrava. A fome é feia e não fica bem nos jornais e televisões. No país onde nasceu o pai de Obama, o Quênia, há 2,4 milhões de pessoas em estado de fome, o equivalente à totalidade da população de Fortaleza. Na Etiópia, temos uma Noruega de fome: 4,6 milhões. Neste agosto de 2011, ocorre a maior seca dos últimos 50 anos em África. Ela faz eclodir saques, a criação de milícias, guerras civis, governos corruptos e o lamento silencioso dos famintos, exauridos pela debilidade física. Estou falando apenas de um grave problema da África: a fome. Poderia falar de outro, o combate à Aids. Fica para depois. Se tiver curiosidade, tempo e coragem, procure ler sobre a fome no mundo. Tomará susto. José Graziano, o brasileiro eleito para dirigir a FAO – Organização para Alimentos e Agricultura da ONU, se prepara para assumir, em 2012, e não terá apoio dos países ricos. Eles possuem outras prioridades. Em outubro, a Terra conterá sete bilhões de pessoas, necessitando de comida, água, roupa, abrigo, educação e trabalho. Enquanto você leu o que escrevi – segundo profetizava o biólogo Paul Erlich, em “A Bomba Populacional”, em 1986 – quatro pessoas terão morrido de fome. Pense nisso.

João Soares Neto,
Escritor

CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 21/08/2011.

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