A GERAÇÀO PERDIDA E HEMINGWAY – Jornal O Estado

Terá sido mesmo, como intitulou a escritora americana Gerrude Stein, uma geração perdida, a que, vinda de países diversos, resolveu ocupar Paris nos anos 20 do século passado? A cidade de Paris, então o centro cultural do mundo, virou o exílio dourado ou o paraíso para imaturos escritores e artistas de todos os continentes, especialmente americanos do norte. Acreditavam eles que a elite cultural do planeta vivia ou acontecia nos arredores do Quartier Latin, na margem esquerda do Rio Sena. Essa área, onde se localiza, a Sorbonne, a universidade referência, gerava um espírito alegre coletivo e os cafés, bares, restaurantes, bibliotecas e museus favoreciam o convívio de gente querendo ser famosa e reconhecida. É esse o cenário que Ernest Hemingway usou em seu livro póstumo “Paris é uma festa”. Foi em 1921 o ano em que o jovem casal americano Elizabeth Hadley e Ernest Hemingway chega a Paris. Ernest participara da 1ª. Grande Guerra pela Itália, tinha estilhaços em uma das pernas e usava isso como diferencial. Nos cinco anos em que sedimentou leituras, fatos, relatos e aguçou sua visão objetiva, encontrou o ambiente que o empurrava para os rumos da então famosa livraria-biblioteca Shakespeare and Co. Foi em Paris que Ernenst consolidou a sua formação com leituras definitivas e ordenou os seus cadernos de notas em que registrava o fascínio por Tolstoi, Dostoiewski, Conrad, James Joyce, T.S. Eliot ,Proust e tantos outros. Assim, pouco a pouco, idealiza a sua estética e cria a ambiência para mesclar a sua ficção com o real. Como já havia dito Oscar Wilde: “a ficção antecipa a realidade”. Ao mesmo tempo em que se aprimorava, brigava com amigos, entre eles, Scott Fitzgerald. A seu modo e tempo, Ernest era correspondente de jornal, o que enxugava o seu texto. Nascido em 1899, Tinha pouco mais de 20 anos quando se aventurou no mundo da escrita. Aos 26, já havia escrito contos vanguardistas e lança “O sol também se levanta”. O livro não causou sensação. Descompensado, encharcado de mulheres e bebidas, no bar do Hotel Ritz, começou a contrair dívidas. Divorciou-se de Elizabeth, em 1927, e teve mais três casamentos complicados. Dois anos depois, lança “Adeus às armas”. Mas só após a sua participação como correspondente da Guerra Civil Espanhola, publicou, em 1937, “Por quem os sinos dobram”. Depois, veio “O velho e o mar” e assim a consagração, talvez tardia, em 1954, quando ganha o Prêmio Nobel de Literatura. A esse tempo, já deprimido, diabético, hipertenso e com arteriosclerose acreditava, em seu íntimo, que realmente a frase recorrente e maldita de Gertrude Stein fazia sentido. Ele era parte de uma geração perdida, pois não encarara a dura realidade do viver. Adepto da “evidência trágica”, morreu em 1961.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/10/2009.

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