“Em uma sociedade com base no conhecimento, por definição é necessário que você seja estudante a vida toda”. Tom Peters, americano, engenheiro e escritor.
Há quanto tempo você não escreve uma carta? Esta pergunta não terá resposta positiva de muita gente. Escrever carta em papel pautado, colocá-la em envelope, endereçá-la e postar nos Correios foi, por muitos anos, a forma preferida de comunicação entre pessoas, empresas comerciais e até entre vários níveis de governo. Hoje, o mundo(world) está sendo conectado pela web. A palavra inglesa web significa rede ou teia. O conjunto de três w ou WWW (World Wide Web) corresponde, na internet, à rede ou a sua teia através do mundo. Assim, a maioria das pessoas, especialmente as nascidas depois do ano 81 do século passado, a tal geração Y, está sempre interligada e sabe algo de tecnologia da informação (TI). Os batizados bem antes, tal como eu, vão errando e procurando espaço nesse mundo meio assustador. Exemplo: toda questão formulada ao Google fica acumulada para formar o seu perfil de usuário. Para sempre.
Teia lembra aranha que pode ter veneno. Logo nos vem à mente a forma, quiçá geométrica, como esse aracnídeo urde os seus campos de atração e ataca. Sabe-se, grosso modo, existir quatro tipos de teias: a de capturas (a prender insetos), a de cópula (à espera do macho fecundador), a de refúgio (para descansar) e a de muda (para se alterar).
A palavra teia parece perfeita para essa face exuberante da informática e das comunicações atuais. Todos somos captados. Alguns entram em redes de afeto, ciência, conhecimento, negócios ou de lubricidade. Outros vagueiam para descansar de sua vida real, e há falseadores de identidade, procurando ser o que não são ou a liberar veneno e maquinação errática mundo afora.O crítico literário John Freeman estabeleceu algumas cautelas para usar a teia mundial. Em 2009 ele escreveu o livro The Tyranny of E-mails (A tirania dos E-mails) e aconselha o uso ponderado do computador, do celular etc. Recomenda, nada antes do café da manhã. Ao acordar, a mente está livre e não é razoável importuná-la com o volume de informações da “teia”. A invasão começa ao ligar o computador ou o celular.
Freeman esteve ano passado no Brasil para falar na 16ª. Bienal Internacional do Livro do Rio e, ao mesmo tempo, lançar dois livros, já traduzidos em português: Como Ler um Escritor e Granta 11 – Os melhores Jovens Escritores Britânicos. Segundo o jornalista Francisco Quinteiro Pires, Freeman mora agora em Nova Iorque, escreve um livro de poesias e leciona na Columbia University. Está “over”.
Essa digressão ao falar de John Freeman mostra como fomos pegos por teias a mudar a direção do pensamento, da fala e da escrita. Somos, vez por outra, desviados por e-mails importunos. Ainda hoje, por exemplo, convoquei a secretária e um jovem melhor em informática do que eu – o que não é nenhuma vantagem – para me dar um mínimo de trégua em face das dezenas de spams (e-mails invasores dos nossos endereços) recebidos a cada dia.
A captura de e-mails traz várias formas de acesso aos usuários comuns. Uma delas, talvez a mais simples, decorre dos nossos próprios e-mails escritos, enviados ou repassados. Por exemplo: se pretendo viajar, passo um e-mail para um agente de viagens. A partir desse e-mail começo a receber tudo sobre viagens. Cuidado, portanto, com os assuntos e os conteúdos dos seus e-mails: eles ficarão zanzando e você receberá o não pedido, por conta da conexão automática apreendida pelas milhares de empresas captadoras e vendedoras de mídias eletrônicas.
As palavras sobre os “hackers”, especialistas em invasão de sistemas de segurança. Eles formam uma grande comunidade internacional, de tamanho ainda não bem mensurado. O Brasil parece ser um dos centros mundiais de maior número de hackers. Eles, quase sempre jovens, ocupam o tempo em desenvolver fórmulas e algoritmos que já desnudaram, entre outros, os códigos de segurança da NASA, a agência espacial dos Estados Unidos, e até da Presidência da República do Brasil. Alguns, depois de descobertos, são até contratados para ajudar a manter sistemas de segurança de bancos, multinacionais, governos e assemelhados.
Assim, estamos condenados a viver na certeza da espionagem. Como esse mundo da web não tem mais volta, e tampouco fronteira, vamos expondo – querendo ou não – os nossos desejos, medos, sonhos, mazelas, metas e vidas privadas. Que jeito?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26/05/2014.

