A MINA E A SOLIDÃO – Jornal O Estado

O jornalista Alonso Soto escreveu, reproduzindo notícias da Agencia Reuters, sobre as relações humanas entre mineiros soterrados no Chile e seus familiares. Foca bem no caso de Lilianet Ramirez, 51 anos. A notícia diz, mais ou menos, o seguinte: ”Copiapó- Abraçada a um bilhete amarfanhado, escrito a 700 metros de profundidade por seu marido, preso há semanas numa mina, Lilianet redige sua primeira carta de amor em várias décadas”.
O bilhete que Mario Gómez, 63 anos, enviou no domingo à superfície, prometendo em breve rever a mulher, comoveu o país. Até então, não se sabia se os 33 mineiros presos na mina de San José, após desmoronamento, estavam vivos ou mortos. Agora, Lilianet terá pela frente uma longa espera de três a quatro meses, enquanto engenheiros e outros técnicos perfuram nova galeria até o refúgio em que os homens se encontram. Eles sobrevivem graças à água que escorre da perfuração, e do ar que entra por dutos de ventilação. Já instalaram tubos plásticos – chamados de “pombas” – pelos quais enviam glicose, gel de hidratação, nutrientes líquidos e remédios aos mineiros. Eles pretendem enviar cartas também. “Dá para imaginar? Após 30 anos de casamento vamos começar a nos mandar cartas de amor outra vez”, disse Lilianet, rindo, apesar do cansaço, após mais de duas semanas instalada no acampamento batizado de “Esperança”. “Quero lhe dizer que eu o amo demais. Quero lhe dizer que as coisas serão diferentes, que teremos uma nova vida”, disse ela. “Vou esperar o quanto for necessário para ver meu marido outra vez.” Na prática, acredito que a ameaça de perder Lillianet reabriu o nível anterior de conquista e as emoções relacionadas a este foram reavivadas.
As equipes de resgate encontraram o bilhete de Gómez preso à broca usada para localizar os mineiros. “Vejo vocês em breve (…) e vamos ser felizes para sempre depois disso”, escreveu o marido. Mas, há também espaço para confusões. O agricultor Alberto Avalos, de 42 anos, tem um sobrinho soterrado: “Honestamente, quero perguntar a ele que diabos estava fazendo lá embaixo da mina. Quero amaldiçoá-lo por ter nos deixado tão preocupados”,
Thomas Mann, no seu livro “Morte em Veneza”, falando sobre a solidão, diz: “A solidão mostra o original, a beleza ousada e surpreendente, a poesia. Mas a solidão também mostra o avesso, o desproporcionado, o absurdo e o ilícito”. Em resumo, digo eu: por que razão essas notícias mostram ser necessário que as pessoas se apartem, que ocorram cataclismos ou grandes traumas, para descobrirem a necessidade de ficar próximas? O que nos leva a, quase sempre, não enxergar a pessoa que está ali ao lado, seja amor, amigo ou parente? O que nos torna indiferentes ao já conquistado ou a quem sempre está disponível? Qual a cegueira ou descaso que parece dominar as relações duradouras? Nem todos precisam ficar presos em uma mina para que descubram seus sentimentos.
Enfim, você acredita que essas cartas são frutos do amor ou apenas refletem a solidão e a apreensão de quem se imagina próximo da morte, no caso de Gómez, ou da possível iminente viuvez de Lilianet? Quando estiverem juntos, refeitos da dor, serão maduros para o reencontro afetivo que prometem?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/09/2010.

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